Por Mário Plaka (*)
Ética. Uma palavra bonita, capaz de despertar confiança, conquistar credibilidade e influenciar consciências. Mas, no Brasil, parece que muitos aprenderam a pronunciá-la sem assumir o compromisso de praticá-la. Assim como o amor, a fé e até mesmo o nome de Deus, a ética é frequentemente invocada para convencer os outros, enquanto a própria conduta contradiz o discurso.
O problema não é a falta de códigos de ética. É a hipocrisia de quem exige que os outros os cumpram, mas encontra justificativas quando a cobrança alcança seus próprios interesses.
O jornalismo possui seu código de ética, que estabelece o compromisso com a informação correta, a verdade e a responsabilidade profissional. Entretanto, como confiar plenamente em uma imprensa quando há sensacionalismo, notícias falsas, cortes de vídeos, dublagens e apresentações fora de contexto? A liberdade de imprensa é indispensável, mas não pode servir de salvo-conduto para a manipulação. E quando a cobertura muda de intensidade conforme o lado político envolvido, a pergunta é inevitável: trata-se de compromisso com a verdade ou de conveniência ideológica?
Na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, existem códigos de ética e regimentos próprios para orientar a conduta parlamentar. Mas de que adianta tanta regra se o decoro é exigido do adversário e relativizado para o aliado? O mandato não é propriedade de quem o exerce, mas uma responsabilidade assumida perante a sociedade. Parlamentar algum deveria utilizar a ética como arma política, cobrando rigor dos outros enquanto se considera merecedor de exceções.
E o mesmo princípio vale para o Supremo Tribunal Federal. Seus ministros estão sujeitos à Constituição, à legislação da magistratura e às demais normas aplicáveis à função. As regras éticas destinadas aos servidores do tribunal não se confundem com um código específico para os ministros, cuja necessidade tem sido objeto de discussão institucional. A independência judicial é indispensável, mas não significa imunidade moral ou ausência de responsabilidade. Quanto maior o poder, maior deve ser o compromisso com a transparência, a imparcialidade e os limites institucionais.
A Constituição Federal é o fundamento jurídico maior da organização do Estado brasileiro. Os códigos e regimentos devem respeitá-la, não servir de instrumentos para interpretações convenientes. Quando as regras são ignoradas, distorcidas ou aplicadas seletivamente, a credibilidade institucional se deteriora.
A contradição também alcança o campo religioso. Há quem fale em Deus, professe a fé cristã e cite a Bíblia Sagrada, mas despreze, na própria conduta, os valores que afirma defender. A fé não deveria ser um instrumento de aparência, assim como a Constituição não pode ser lembrada apenas quando favorece uma posição política. Não basta professar princípios; é preciso demonstrar fidelidade a eles quando sua prática exige renúncia, responsabilidade e coragem.
No debate eleitoral, artistas, jornalistas, influenciadores e formadores de opinião têm o direito de apoiar candidatos. O problema não é a preferência política, tampouco uma remuneração publicitária legítima e transparente. O problema surge quando se manipula a informação, se omitem interesses relevantes ou se exige da população uma postura que não corresponde à própria prática. Quem incentiva o cidadão a votar, por exemplo, precisa estar disposto a esclarecer eventuais contradições sobre sua própria situação eleitoral, sem que suspeitas sejam tratadas como fatos antes da devida verificação.
É a velha hipocrisia: “Façam o que eu digo, mas não olhem o que eu faço.”
E aqui está o ponto central: a hipocrisia seletiva é uma das maiores inimigas da ética. Ela condena o erro de um lado e protege o mesmo erro do outro; denuncia quando convém e silencia quando incomoda; exige transparência dos adversários e oferece justificativas aos aliados. Não é defesa de princípios. É defesa de interesses disfarçada de virtude.
Neste segundo turno, o eleitor precisa enxergar além dos discursos emocionados, das celebridades, das manchetes e das palavras de efeito. Deve conferir informações, examinar propostas e comparar o que se fala com o que efetivamente se pratica. Não entregue sua consciência à propaganda, nem confunda popularidade com honestidade ou repetição com verdade.
O Brasil não precisa de mais pessoas falando em ética. Precisa de jornalistas comprometidos com os fatos, parlamentares responsáveis, ministros conscientes dos limites de suas funções e cidadãos dispostos a cobrar coerência de todos, sem proteger quem pensa como eles.
A ética não pode ter partido, a verdade não pode ter dono e a responsabilidade não pode depender de quem está sendo julgado.
Porque quem transforma princípios em exigências para os outros e em exceções para si mesmo não está defendendo a ética: está explorando sua aparência para conquistar poder, influência ou credibilidade.
Eleitor, desconfie de quem faz da ética um palanque, da fé um escudo e da verdade uma conveniência. Não avalie apenas o que dizem. Observe o que fazem, o que omitem e o que estão dispostos a justificar quando os interesses estão em jogo.
Ética não é o que se proclama. É o que se pratica — principalmente quando a verdade contraria os nossos próprios interesses.
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)























