Por Mário Plaka (*)
Ao olhar a capa da revista Veja, estampando a expressão “o país dividido”, senti-me provocado a apresentar uma reflexão: dividido em quantas partes? A interpretação mais comum é a de que o Brasil está dividido entre direita e esquerda. Discordo. Na minha visão, o país está dividido em quatro grupos, com comportamentos, interesses e responsabilidades diferentes. Dois disputam a preferência popular, um comanda boa parte do jogo político e o quarto, por não compreender ou não querer compreender o funcionamento da política, acaba sendo usado pelos demais.
O primeiro grupo é a direita, que durante muito tempo pareceu adormecida, mas despertou e se tornou uma força política, queiram ou não seus adversários. O segundo é a esquerda, igualmente forte e com presença enraizada na sociedade. Não podemos menosprezar nenhum dos dois lados.
Quer identificar o perfil de quem se reconhece na esquerda? Observe seu vizinho, alguém da família ou um colega de trabalho. Faça o mesmo com quem se identifica com a direita. Você encontrará pessoas que enxergam o Brasil por perspectivas diferentes e que, muitas vezes, se reconhecem nas figuras que simbolizam esses campos: Lula, de um lado; Bolsonaro, do outro. O problema começa quando a divergência política deixa de ser uma disputa de ideias e passa a ser motivo para hostilidade, rompimento familiar e agressão.
Mas existe um terceiro grupo, que considero o maestro de boa parte do espetáculo político brasileiro: o Centrão, que denomino “isentões”. São forças políticas que, em regra, procuram permanecer próximas de quem ocupa o poder, negociando espaço, influência e participação nas decisões. Não precisam necessariamente disputar a Presidência ou lançar um candidato próprio para exercer poder. Muitas vezes, preferem apoiar quem oferece melhores condições para seus interesses, seja à direita, seja à esquerda. Evidentemente, o Centrão não é um bloco uniforme, e seus integrantes não agem todos da mesma maneira. Mas a lógica do pragmatismo político é conhecida: enquanto a direita e a esquerda disputam o protagonismo diante das câmeras, forças do Centrão negociam sua posição nos bastidores. Eis a contradição: quem parece estar no centro pode acabar exercendo influência decisiva sobre quem ocupa o poder.
O quarto grupo é o dos analfabetos políticos. Não me refiro a quem não teve oportunidade de estudar, mas a quem escolhe ignorar a política, acredita que ela não interfere em sua vida e se recusa a compreender como as decisões públicas afetam seu trabalho, sua família, seus direitos, seus impostos e seu futuro. É justamente essa indiferença que abre espaço para a manipulação. Quando o cidadão não acompanha os fatos, não examina propostas, não cobra seus representantes e não distingue discurso de realidade, torna-se presa fácil de quem sabe explorar sua indignação, seu medo e suas esperanças. Os três primeiros grupos, com suas diferenças e seus interesses, encontram nesse terreno fértil uma oportunidade para transformar cidadãos desinformados em massa de manobra.
Há uma reflexão frequentemente atribuída ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht sobre o analfabeto político, relacionando a indiferença à corrupção e aos males sociais. A mensagem permanece atual: a política não desaparece porque alguém decide ignorá-la. Pelo contrário, quando o cidadão se afasta, outros passam a decidir por ele. E o preço dessa omissão aparece na qualidade dos representantes escolhidos, nas prioridades do poder público e nas consequências que recaem sobre toda a sociedade.
É também nesse ambiente que a rivalidade política se transforma em intolerância. Pessoas que deveriam discutir ideias passam a atacar vizinhos, romper relações familiares, humilhar colegas e afrontar desconhecidos nas ruas por causa de candidatos ou partidos. Isso não é consciência política; é a substituição do pensamento pela hostilidade. Quem conhece a importância da política pode defender suas convicções com firmeza, cobrar resultados e denunciar contradições sem precisar tratar o adversário como inimigo pessoal. A divergência é legítima. A agressão não é prova de inteligência, muito menos de superioridade moral.
Eis, portanto, a minha leitura do Brasil: a direita, a esquerda, o Centrão e o analfabeto político. Os dois primeiros disputam a preferência do eleitor; o terceiro procura preservar sua influência sobre o poder; e o quarto, quando desiste de pensar, oferece o terreno para que os demais o conduzam conforme seus interesses. É um tripé de disputa e poder que encontra na alienação política o apoio necessário para manter o espetáculo em funcionamento. Não se trata de afirmar que todo eleitor desinformado age da mesma maneira, nem que todo político pertence a uma engrenagem idêntica. Trata-se de reconhecer um problema estrutural que precisa ser enfrentado com informação, participação e responsabilidade.
Por isso, diante da capa da Veja, deixo uma pergunta: o Brasil está realmente dividido apenas entre direita e esquerda ou essa divisão conveniente esconde quem negocia o poder nos bastidores e quem, por não querer compreender a política, acaba trabalhando contra os próprios interesses? Antes de escolher um lado, o cidadão precisa aprender a enxergar o tabuleiro inteiro. Afinal, enquanto o povo briga nas arquibancadas, alguém continua regendo o espetáculo.
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)























