Por Mário Plaka (*)
Transporte coletivo, tarifa única, acessibilidade, trânsito, transporte de cargas, ciclovias e mobilidade urbana continuam esperando respostas. E a população quer saber o que foi feito, quanto custou e o que está previsto para 2027.
Há muitos anos venho cobrando uma atuação efetivamente metropolitana para o Vale do Aço. Não é uma cobrança de agora, tampouco uma preocupação isolada. Tenho defendido a integração do transporte coletivo entre Santana do Paraíso, Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo e também os municípios do entorno, como Belo Oriente e Ipaba.
Afinal, as pessoas não vivem dentro das fronteiras administrativas desenhadas pelos municípios. Elas trabalham em uma cidade, moram em outra, estudam em uma terceira e precisam circular pela região para ter acesso à saúde, ao comércio e aos serviços. Então, por que o transporte continua sendo tratado de maneira tão fragmentada? Por que ainda não temos uma política regional consistente de integração tarifária, com possibilidade de tarifa única, redução dos custos para o passageiro e linhas planejadas de acordo com a realidade dos deslocamentos da população? O transporte coletivo não pode ser tratado apenas como negócio de empresas ou uma questão isolada de cada prefeitura. É um serviço essencial, que precisa atender principalmente à população trabalhadora, facilitar a vida de quem depende do ônibus e contribuir para diminuir a quantidade de veículos nas ruas. Uma região que funciona economicamente de maneira integrada não pode continuar tratando sua mobilidade como se cada município fosse uma ilha.
E o problema não termina nos ônibus. Temos uma situação preocupante no transporte de cargas. É inadmissível que veículos pesados, carretas de 60 ou 80 toneladas, circulem por dentro de bairros, utilizando vias que não foram projetadas para suportar esse tipo de carga e provocando danos ao pavimento, além de riscos à segurança dos moradores. Onde está o planejamento logístico regional? Onde estão as rotas adequadas, a fiscalização e a organização dos corredores de transporte de cargas?
Quero chamar a atenção para uma proposta que considero fundamental para o futuro do Vale do Aço: a construção de um corredor metropolitano de ciclovias e pistas de caminhada interligando nossos municípios. Imaginem uma estrutura planejada, segura, contínua e bem-sinalizada, conectando Santana do Paraíso, Ipatinga, Coronel Fabriciano e Timóteo, com estudos de viabilidade para ampliar essa integração até Belo Oriente e Ipaba.
Não estou falando apenas de pequenas faixas pintadas no asfalto ou de trechos isolados dentro dos bairros. Estou falando de infraestrutura regional, com separação física do tráfego de veículos, iluminação, sinalização, pontos de apoio e espaços adequados para ciclistas e pedestres. Uma estrutura que permita às pessoas utilizar a bicicleta como meio de transporte, praticar esportes, fazer caminhadas e desfrutar de momentos de lazer com segurança.
Quantos ciclistas precisam continuar disputando espaço com ônibus, caminhões, carretas e automóveis? Quantas pessoas já perderam a vida pedalando pelas nossas vias? E quantas outras ainda poderão perder se o poder público continuar tratando essa necessidade como algo secundário? Não podemos esperar que novas tragédias aconteçam para reconhecer que falta infraestrutura.
Uma ciclovia metropolitana bem planejada não é apenas uma obra de mobilidade: é investimento em saúde preventiva, esporte, turismo, qualidade de vida, preservação ambiental e segurança. Pode reduzir deslocamentos de automóveis, incentivar hábitos saudáveis e criar uma possibilidade de integração entre as cidades. Essa é uma pauta que precisa estar na mesa da Agência Metropolitana, não apenas das prefeituras.
Afinal, se não houver planejamento regional, cada município continuará construindo pequenos trechos desconectados, sem continuidade e sem oferecer ao cidadão uma alternativa real de deslocamento. O Vale do Aço precisa pensar grande.
Precisamos deixar de enxergar as ciclovias apenas como equipamentos urbanos e começar a tratá-las como corredores metropolitanos de mobilidade ativa. Uma região que pretende ser desenvolvida precisa oferecer condições para que as pessoas possam circular, trabalhar, praticar esportes e caminhar sem colocar a própria vida em risco.
E quanto aos pedestres e à acessibilidade? Nossos passeios públicos, em muitos lugares, são verdadeiros obstáculos. Acessibilidade não pode existir somente na legislação ou nos discursos. Pessoas com deficiência, idosos e cidadãos com mobilidade reduzida precisam de calçadas adequadas, travessias seguras e transporte público preparado para atendê-los. Não basta falar em mobilidade se uma pessoa não consegue sequer caminhar com segurança pela calçada. O planejamento precisa contemplar quem anda, quem pedala, quem utiliza o transporte coletivo e quem possui limitações de mobilidade.
O trânsito do Vale do Aço também exige uma resposta conjunta. Cada município parece seguir uma direção, sem uma política regional capaz de organizar fluxos, compatibilizar intervenções, melhorar a sinalização, planejar corredores e reduzir conflitos. O resultado é uma mobilidade cada vez mais difícil, com congestionamentos, insegurança e perda de tempo para quem precisa se deslocar diariamente.
É justamente para enfrentar problemas dessa natureza que existe a Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Vale do Aço (ARMVA). Entretanto, quando observamos a realidade, fica a pergunta: onde está a atuação metropolitana que deveria coordenar, articular, cobrar e apresentar soluções?
Não estou ignorando o que existe no papel. A própria ARMVA apresenta iniciativas de planejamento, regularização fundiária, reuniões institucionais e projetos. O Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado foi instituído pela Lei Complementar nº 178, de dezembro de 2024.
Em janeiro de 2026, foi criado o Comitê de Mobilidade Urbana, mas com caráter consultivo e propositivo, sem poder deliberativo. Em outubro de 2026, foi anunciada a contratação da Codemge, por R$ 3,8 milhões, para elaborar o Plano de Mobilidade Metropolitana, com prazo de 24 meses. Ou seja, estamos diante de mais um planejamento que ainda precisa sair do papel e se transformar em benefícios concretos para a população.
Há outro dado que merece atenção: no monitoramento orçamentário da Assembleia Legislativa referente ao primeiro quadrimestre de 2026, a ação de fomento ao desenvolvimento sustentável da Região Metropolitana do Vale do Aço tinha R$ 1.356.794,00 autorizados, dos quais R$ 160.002,44 apareciam como despesa realizada, correspondentes a 11,8% do valor autorizado. Esse número precisa ser contextualizado com o período de execução, os empenhos e os compromissos assumidos, mas é justamente por isso que a sociedade precisa ter acesso a informações completas e periódicas.
Não basta apresentar números soltos, fotografias de reuniões e anúncios de projetos. É preciso mostrar o que foi entregue, o que está em execução, o que está atrasado e o que não saiu do planejamento.
Aqui chego a outra questão que há tempos me incomoda: qual é, efetivamente, o critério de composição e ocupação dos cargos dessa agência? Existe uma percepção de que estruturas como essa podem acabar servindo de acomodação política, com espaço para parentes, apadrinhados e pessoas ligadas a grupos políticos. Não estou apresentando essa percepção como prova de nepotismo ou de irregularidade. Estou cobrando transparência para que não exista dúvida.
A população tem o direito de conhecer o quadro de servidores, os cargos comissionados, as remunerações, os critérios de nomeação, a qualificação técnica e os resultados produzidos por cada estrutura administrativa. Afinal, se existe dinheiro público sustentando uma instituição, existe também a obrigação de prestar contas à sociedade.
Minha cobrança à Agência Metropolitana não é para que promova mais encontros ou produza mais documentos para alimentar arquivos. É para que exerça sua finalidade institucional.
Quero ver um relatório público consolidado de 2025 e 2026, discriminando as ações executadas, os investimentos realizados, os contratos firmados, os resultados alcançados e as responsabilidades assumidas. Quero saber o que foi feito em cada município, quais problemas foram resolvidos, quais continuam pendentes e quais projetos foram abandonados. Principalmente, quero conhecer a projeção para 2027: quais metas serão cumpridas, quais recursos estarão disponíveis, qual será o cronograma de execução e quais mudanças concretas a população poderá cobrar.
A Agência precisa explicar como pretende avançar na integração tarifária, na reorganização das linhas de ônibus, na acessibilidade, nas ciclovias metropolitanas, nas pistas de caminhada, na segurança do trânsito, no transporte de cargas e na integração das políticas municipais. Precisamos saber se existe um planejamento para conectar os municípios por meio de corredores seguros de mobilidade ativa, se há estudos técnicos, estimativas de custos, fontes de financiamento e previsão de execução.
Não podemos aceitar que a palavra “metropolitana” seja apenas um nome bonito na fachada de uma instituição. Uma região metropolitana precisa ter planejamento metropolitano, gestão integrada e resultados que ultrapassem os limites de cada prefeitura.
Se a agência existe para cumprir essa missão, que demonstre sua utilidade pública. Do contrário, a população continuará pagando a conta de uma estrutura administrativa cuja atuação não consegue enxergar no cotidiano. A sociedade não tem obrigação de sustentar estruturas públicas apenas porque foram criadas por lei. Tem o direito de exigir que elas justifiquem sua existência com trabalho, transparência e resultados.
A pergunta é simples e precisa de uma resposta pública: o que a Agência Metropolitana do Vale do Aço efetivamente entregou em 2025 e 2026, e com o que está comprometida a entregar em 2027? Não queremos mais promessas de integração. Queremos integração funcionando. Não queremos mais planejamento sem prazo. Queremos cronograma, execução e fiscalização. Não queremos uma Agência conhecida apenas por sua existência administrativa. Queremos uma Agência que seja reconhecida pelos resultados que entrega à população.
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)

























