Por Mário Plaka (*)
Os democratas conquistaram a maioria nas duas casas do Congresso americano, e isso precisa ser reconhecido pelo que representa: uma derrota eleitoral para o partido de Donald Trump e uma mudança importante na correlação de forças em Washington. Entretanto, seria um erro confundir vitória legislativa com controle do governo.
Uma coisa é conquistar cadeiras no Congresso; outra, bastante diferente, é transformar essa maioria em capacidade efetiva de conduzir os destinos de uma nação. Donald Trump continua na presidência, conserva poderes constitucionais relevantes, o comando do Executivo, a condução da política externa e o poder de veto. Portanto, a oposição ganhou instrumentos importantes para fiscalizar, investigar, bloquear e negociar, mas não recebeu as chaves da Casa Branca. E é justamente nesse cenário que a habilidade política de Trump e de sua equipe será colocada à prova.
Trump tem um estilo próprio, marcado pela comunicação direta, pela pressão política e pela negociação baseada em interesses. Seu comportamento confrontador pode criar dificuldades, mas também faz parte de sua maneira de estabelecer posições e buscar acordos. Ao seu lado, JD Vance não é apenas o vice-presidente: conhece o Congresso por dentro, foi senador e possui experiência no ambiente legislativo. Essa bagagem poderá ser decisiva na interlocução com os parlamentares. Soma-se a isso a equipe de relações legislativas da Casa Branca, que terá a responsabilidade de construir pontes, identificar pontos de convergência e transformar interesses presidenciais em acordos possíveis.
Não se trata de imaginar que Trump conseguirá tudo o que deseja, muito menos de subestimar a força da oposição. Trata-se de compreender que a governabilidade americana não depende exclusivamente da quantidade de cadeiras que cada partido conquista. Depende também da capacidade de negociação, dos instrumentos constitucionais, da liderança e da habilidade de construir consensos.
E existe outro fator: a opinião pública americana. Trump possui uma estrutura de comunicação direta com seus apoiadores e capacidade de mobilização política. Poderá recorrer à população quando considerar que determinado projeto de interesse público está sendo bloqueado.
Entretanto, mobilizar sua própria base não significa automaticamente conquistar a maioria da sociedade. A eleição demonstrou que seu apoio também encontra limites. O desafio será transformar comunicação em interlocução, pressão em negociação e apoio popular em sustentação política para propostas concretas.
Os próximos meses serão decisivos. Orçamento, economia, imigração, segurança, política externa e relações comerciais estarão no centro das disputas. Os democratas terão a oportunidade de demonstrar que sabem governar legislativamente, e Trump terá de demonstrar que sabe governar politicamente diante de um Congresso adversário.
A vitória democrata é real, mas não representa um cheque em branco para a oposição. Da mesma forma, a permanência de Trump na presidência não lhe assegura aprovação automática de sua agenda.
O que veremos será um teste de força institucional, capacidade de articulação e maturidade política.
Ganhar a maioria é conquistar o direito de participar das decisões e comandar o Legislativo. Mas fazer essa maioria produzir resultados exige muito mais do que contar votos. Exige habilidade, estratégia, interlocução e capacidade de negociação. Os próximos dias começarão a revelar quem realmente domina a arte de transformar poder político em resultados.
E essa disputa não será observada apenas pelos americanos: será acompanhada pelo mundo inteiro, porque, quando Washington negocia, confronta ou recua, os reflexos ultrapassam suas próprias fronteiras.
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)

























