Por Mário Plaka (*)
Você, esquerdista, você, isentão, você que diz não querer saber de política e só resolve escolher um lado na última hora, quando alguém lhe oferece alguma vantagem, quando uma mentira o convence ou até quando uma verdade lhe interessa: vamos fazer um teste de sinceridade? Mas não responda com a boca. Responda com a consciência. Quero que essas perguntas alcancem o fundo da sua alma, do seu caráter e dos princípios que você afirma defender.
Imagine, por um instante, que André Mendonça ou Luiz Fux tivessem adotado as mesmas condutas atribuídas a Alexandre de Moraes, Flávio Dino ou Cristiano Zanin, nas situações envolvendo a atuação do Judiciário e o processo eleitoral. Imagine que as decisões, manifestações e intervenções tivessem ocorrido em benefício de Flávio Bolsonaro. Como você reagiria? O que diriam os jornais, os comentaristas, os políticos e os militantes? A imprensa trataria tudo com a mesma naturalidade? Você chamaria isso de democracia, de normalidade institucional ou de abuso de poder? E se fosse um ministro identificado com a direita tomando as mesmas atitudes, você estaria defendendo a independência do Judiciário ou exigindo punição?
Agora vamos inverter novamente o cenário. Se Flávio Bolsonaro tivesse feito e falado o que Lula fez em diferentes momentos, nas mesmas circunstâncias políticas e eleitorais, qual seria a sua reação? Se as declarações, os episódios e as controvérsias dos últimos momentos da eleição fossem atribuídos a Flávio, você estaria igualmente silencioso? E diante das publicações que apontam milhões de votos sem identificação biométrica e de questionamentos sobre o funcionamento de urnas, você teria a mesma disposição para exigir esclarecimentos? É importante separar denúncia de prova, questionamento de comprovação e investigação de condenação. Mas a exigência de transparência precisa valer para todos, sem exceção.
Agora, seja brutalmente honesto consigo mesmo: se tudo isso favorecesse o seu adversário, você estaria indignado? Se favorecesse o seu candidato, estaria comemorando? Você teria coragem de defender na rua aquilo que hoje defende nas redes sociais? Como explicaria sua posição à sua esposa, aos seus filhos, aos seus amigos, aos irmãos da sua igreja? Conseguiria olhar nos olhos deles e dizer que seus princípios são os mesmos, independentemente de quem esteja no poder?
Porque o problema não é ser de esquerda, de direita ou de centro. O problema é transformar a própria consciência em instrumento de conveniência política. É condenar no adversário aquilo que se aplaude no aliado. É exigir justiça quando ela nos favorece e chamar de perseguição quando ela alcança os nossos. Isso não é convicção. É submissão partidária, conveniência e dois pesos e duas medidas.
Talvez você não tenha coragem de responder a essas perguntas publicamente.
Talvez prefira ignorar esta publicação, mudar de assunto ou atacar quem a escreveu. Mas não é necessário responder a mim. Responda a si mesmo. Que essa pergunta acompanhe você na rua, no trabalho, dentro da igreja, na mesa com sua família e, principalmente, quando estiver sozinho, diante do próprio travesseiro: se fosse o seu lado fazendo exatamente a mesma coisa, você teria a mesma indignação?
Se a resposta for não, o problema talvez não esteja na política, nos políticos ou nas instituições. Talvez esteja naquilo que você deixou de preservar dentro de si: o compromisso com a verdade, a coerência, a ética e a dignidade.
A democracia não exige que você concorde comigo. Exige que você tenha coragem de defender os mesmos princípios quando quem erra é o seu lado. Porque caráter não se mede pela indignação contra o adversário. Mede-se pela coragem de reconhecer o erro de quem você escolheu apoiar.
E então, você tem convicções ou apenas conveniências?























