Por Mário Plaka (*)
Se a esquerda é amor, por que aqueles que se colocam contra ela, quando ela está no poder, denunciam suas estruturas, enfrentam o sistema ou expõem aquilo que deveria permanecer escondido, tantas vezes precisam olhar para os lados, buscar proteção e, em alguns casos, andar de colete à prova de bala? Não é uma acusação; é uma pergunta diante de fatos que estão registrados.
Jair Bolsonaro sofreu uma tentativa de assassinato durante a campanha de 2018. Fernando Villavicencio, candidato à presidência do Equador e conhecido por denunciar corrupção e crime organizado, foi assassinado durante a campanha. E ameaças contra integrantes da família Bolsonaro, incluindo Flávio Bolsonaro, também já foram objeto de registros e investigações.
No mundo, encontramos situações ainda mais graves: em regimes como Venezuela, Cuba e Coreia do Norte, opositores e críticos do poder enfrentam perseguição, prisão, censura e, em diferentes circunstâncias, violência. E não é preciso concordar com nenhum desses lados para reconhecer uma realidade: quando o poder deixa de tolerar quem o enfrenta, o denunciante passa a correr risco.
E há uma frase que torna essa reflexão ainda mais incômoda. Lula afirmou publicamente: “Nós nos tornamos o sistema.” Se uma força política reconhece que deixou de ser oposição e passou a fazer parte do sistema, então quem denuncia esse sistema passa necessariamente a enfrentá-lo. E é justamente aí que nasce a pergunta deste editorial: se a esquerda é amor, por que aqueles que se opõem a ela, quando ela está no poder, precisam tantas vezes olhar para os lados antes de denunciar?
Não se trata de afirmar que toda violência política vem da esquerda, porque a realidade é muito mais complexa. Violência política é violência, venha de onde vier. Mas uma democracia verdadeiramente saudável não deveria transformar a denúncia em atividade de risco. Quem tem razão deveria precisar apenas de argumentos.
Quem tem verdade deveria desejar investigação. Quem acredita na justiça deveria querer que tudo fosse colocado sob a luz do dia.
O cidadão não deveria precisar de colete à prova de bala para exercer o direito de denunciar o poder. Porque, quando o medo começa a substituir o debate, alguma coisa muito séria já deixou de funcionar na democracia.























