Por William Saliba
Existe uma diferença enorme entre fazer humor e perder completamente a noção da humanidade. E foi exatamente isso que muita gente enxergou na charge publicada ontem (9) pela Folha de S.Paulo sobre a morte da jovem magistrada gaúcha Mariana Francisco Ferreira.
A morte de uma mulher nunca deveria virar motivo de deboche. Ainda mais quando essa morte acontece em meio a uma tentativa dolorosa, difícil e profundamente humana de realizar o sonho da maternidade. Mas, infelizmente, em tempos de radicalização e militância travestida de “humor inteligente”, parece que parte da sociedade perdeu a capacidade mais básica de sentir empatia.
A charge assinada por Marília Marz não provocou indignação apenas por ser ácida. O problema maior foi transformar uma tragédia pessoal em sarcasmo ideológico. A frase publicada não atingiu somente uma magistrada falecida. Ela atingiu milhares de mulheres brasileiras que enfrentam diariamente a dura escolha entre construir uma carreira sólida ou constituir uma família.
E aqui é preciso dizer uma verdade que muitos preferem ignorar: o mercado de trabalho ainda pune silenciosamente a maternidade. Isso se torna ainda mais cruel em profissões extremamente exigentes, como o Direito, a magistratura, o Ministério Público, a advocacia ou a vida acadêmica. São anos de estudos, concursos difíceis, jornadas pesadas, transferências de cidade e pressão psicológica constante.
Enquanto muitos homens conseguem construir suas carreiras sem que a paternidade seja tratada como obstáculo, as mulheres quase sempre carregam esse peso sozinhas. O relógio biológico não espera. E quando elas recorrem à fertilização in vitro, não estão buscando luxo ou vaidade. Estão apenas tentando recuperar um tempo que lhes foi consumido pelas exigências da própria sociedade.
O mais assustador nisso tudo é perceber como parte do debate público passou a tratar a dor humana como espetáculo. Tudo vira munição ideológica. Tudo vira torcida. Tudo vira lacração. E, nesse ambiente tóxico, desaparecem valores básicos como respeito, prudência e compaixão.
A liberdade de expressão é fundamental. A imprensa livre é indispensável numa democracia. O humor político também tem seu papel histórico e social. Mas liberdade jamais significou ausência de responsabilidade. Existe uma linha tênue entre crítica e desumanização. E quando a dor de alguém vira motivo de escárnio público, essa linha já foi ultrapassada há muito tempo.
A filósofa Hannah Arendt alertava sobre a banalização da crueldade nas sociedades modernas. Talvez seja exatamente isso que estamos vivendo: uma era em que o sofrimento alheio deixou de gerar solidariedade e passou a servir apenas como combustível para disputas ideológicas e exibições de superioridade moral nas redes sociais.
Outro ponto preocupante é o julgamento implícito contra mulheres bem-sucedidas. Como se alcançar independência profissional anulasse o direito à maternidade. Como se mulheres que priorizam a carreira merecessem algum tipo de punição simbólica. Isso não é progresso. Não é humor sofisticado. É apenas uma forma moderna de preconceito antigo.
A morte de Mariana poderia abrir discussões sérias sobre saúde feminina, fertilização assistida, pressão profissional e apoio às mulheres em carreiras de alta exigência. Poderia gerar reflexão sobre o abandono emocional enfrentado por muitas profissionais. Poderia trazer humanidade ao debate público.
Mas escolheram o caminho mais fácil: o da zombaria.
E talvez seja justamente esse o retrato mais triste do nosso tempo. Não apenas a perda precoce de uma jovem magistrada, mas a incapacidade crescente de parte da sociedade de compreender que existem dores que exigem silêncio, respeito e humanidade.



















