Mário Plaka (*)
Gente sem palavra sempre existiu, mas agora parece que piorou. Hoje, o sujeito fala em uma reunião em pé, sentado, de costas, de frente… e não sustenta. Assina documento e depois contesta a própria assinatura. Promete e não cumpre. Na vida toda isso aparece, mas na política é onde se tornou regra: gente que se diz honesta, patriota, defensora de valores, mas não sustenta o que a própria boca diz.
A sociedade está doente porque seguimos pessoas doentes — e, quanto pior o conteúdo, mais seguidores aparecem. É por isso que o mundo degringolou. Se você quiser clareza de raciocínio, comece a acompanhar quem entrega conteúdo que te desperta, não quem te emburrece. Foi assim que cheguei ao Artidor Soares, e a reflexão dele é um tapa necessário.
Ele contou que, quando tinha 17 anos, viajava a cavalo com o pai — viagem de 40 dias. Um vizinho apareceu pedindo que, se encontrassem alguém tirando palanque (sign. tronco ao qual se prende o cavalo para o domar ou tratar), encomendassem dez dúzias. O pai aceitou e seguiu adiante. Passaram na casa de um conhecido que tirava palanque; o homem estava precisando de dinheiro e prometeu que, quando voltassem, estaria tudo pronto. Dito e feito: mais de dez dúzias de palanques estavam lá na frente da casa. Na volta, o pai chamou o vizinho para avisar que o material estava pronto. A resposta? Um grito de longe: “Não quero mais, arrumei outros aqui, muito obrigado!”. O pai respondeu apenas: “De nada”.
O jovem, indignado, perguntou ao pai o que fariam: o outro homem ficaria com toda a despesa sozinho? O pai, sábio, respondeu: “Agora vamos fretar um caminhão e buscar os palanques. Nós não precisamos e mal podemos pagar, mas aprenda uma coisa, meu filho: a gente não pode permitir que uma pessoa honesta pague por um desonesto.”
E complementou: “Quando alguém perde a palavra, não tem mais nada que nos interessa. Negócio com ele, nunca mais.” Na semana seguinte, foram lá, carregaram tudo. O tirador de palanques agradeceu achando que o vizinho tinha cumprido o combinado. Mas o pai apenas disse “amém”. E explicou ao filho: “Tem coisa que Deus vendo e Deus sabendo já acabou. Não precisa contar.”
Essa história resume o nosso tempo: vivemos cercados por gente que perdeu a palavra — e, quando a palavra se perde, perde-se tudo. E o mais triste é que isso se multiplicou justamente onde menos deveria: na política, nas instituições, na vida pública. Gente que promete o céu e entrega o inferno. Gente que posa de moralista na internet, mas no dia a dia não aguenta sustentar uma única frase que diz. E enquanto a sociedade continuar premiando quem mente, quem engana, quem fala bonito e age feio, continuaremos presos nesse ciclo de mediocridade moral.
A verdade é uma só: quem não tem palavra, não tem valor.
E a sociedade que normaliza esse tipo de gente não tem futuro.























