Por Mário Plaka (*)
Nos últimos dias, chamou a atenção de milhões de brasileiros uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao comentar adversários políticos.
Segundo amplamente divulgado pela imprensa, o presidente afirmou:
“São traidores. Por menos que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado.”
Na sequência, acrescentou:
“O que merecem os traidores da pátria que vão pedir intervenção de um país no nosso? Pensem aí.”
Independentemente da posição política de cada cidadão, algumas perguntas precisam ser feitas.
Que mensagem uma fala dessa transmite para a sociedade?
Qual interpretação um cidadão comum deve fazer quando uma autoridade associa adversários políticos à figura de “traidores da pátria” e, logo em seguida, menciona um episódio histórico ligado ao enforcamento?
Trata-se apenas de retórica política?
Trata-se de uma comparação histórica inadequada?
Ou trata-se de uma fala que pode ser interpretada de maneiras diferentes por públicos diferentes?
Essas perguntas não podem ser ignoradas.
Palavras possuem consequências.
Discursos possuem consequências.
Lideranças possuem influência.
Se palavras não influenciassem pessoas, não existiriam campanhas eleitorais, propaganda política, movimentos ideológicos, líderes religiosos ou estratégias de comunicação.
A história da humanidade é construída, em grande parte, pela capacidade que determinadas lideranças possuem de influenciar multidões.
Por isso, quanto maior a liderança, maior deve ser a responsabilidade.
Uma frase dita por um cidadão comum possui determinado alcance.
Uma frase dita por um vereador possui outro.
Uma frase dita por um deputado possui outro.
Mas uma frase dita por um Presidente da República alcança milhões de pessoas simultaneamente.
Ao ouvir essa declaração, lembrei imediatamente de uma situação que presenciei pessoalmente.
Durante uma manifestação em minha região, um Vereador passou a utilizar palavras inflamadas contra uma deputada que estava presente no local.
A cada frase, o ambiente ficava mais tenso.
A cada palavra, aumentava a hostilidade.
A cada provocação, crescia o risco de alguém agir impulsivamente.
Naquele momento, compreendi que algo perigoso estava sendo criado.
Procurei permanecer próximo da parlamentar porque percebi que determinadas palavras poderiam produzir consequências imprevisíveis.
Felizmente nada aconteceu.
Mas isso não significa que o risco não existia.
Eu estava lá.
Eu vi.
Eu acompanhei.
E a pergunta permanece até hoje:
É necessário que uma agressão aconteça para que se reconheça o perigo de determinados discursos?
Anos depois, os mesmos atores políticos que trocavam acusações passaram a ocupar o mesmo espaço político.
As alianças mudaram.
Os discursos mudaram.
Mas o risco criado naquele momento era real.
É exatamente por isso que a sociedade precisa refletir sobre a responsabilidade das lideranças.
A própria legislação brasileira reconhece que palavras possuem impacto.
O artigo 286 do Código Penal trata da incitação pública à prática de crime.
O artigo 287 trata da apologia de fato criminoso ou de autor de crime.
A existência desses dispositivos demonstra que o legislador reconheceu algo simples: palavras podem influenciar comportamentos.
Não estou afirmando que qualquer caso específico se enquadra automaticamente nesses dispositivos legais.
Essa análise cabe às autoridades competentes.
Mas estou afirmando algo que deveria ser consenso: lideranças públicas precisam compreender o peso de suas palavras.
E isso vale para todos.
Vale para Lula.
Vale para Bolsonaro.
Vale para governadores.
Vale para parlamentares.
Vale para líderes religiosos.
Vale para qualquer pessoa que exerça grande influência sobre outras pessoas.
Uma pessoa equilibrada pode ouvir determinada frase e interpretá-la apenas como discurso político.
Mas será que todos possuem esse mesmo equilíbrio?
Será que um fanático possui?
Será que um extremista possui?
Será que uma pessoa emocionalmente instável possui?
Será que alguém predisposto à violência possui?
São perguntas legítimas.
E são perguntas que uma sociedade democrática não deveria ignorar.
A democracia se fortalece quando ideias enfrentam ideias.
Quando argumentos enfrentam argumentos.
Quando fatos enfrentam fatos.
Mas a democracia se fragiliza quando o debate político passa a conviver com referências a execuções, punições físicas e linguagem capaz de ampliar ainda mais a hostilidade entre brasileiros.
Toda liderança deveria compreender que palavras geram sentimentos.
Sentimentos geram comportamentos.
E comportamentos podem produzir consequências que ninguém conseguirá desfazer depois.
Por isso, a responsabilidade de uma liderança não começa depois da tragédia.
Ela começa antes.
Muito antes.
Começa no exato momento em que escolhe as palavras que lançará sobre milhões de pessoas.

























