Por Mário Plaka (*)
Eu também já fui petista. E digo isso sem vergonha, porque não tenho medo de contar a minha própria história. Sou trabalhador, pequeno empreendedor e, quando o PT começou a ganhar força, fui convidado a fazer parte daquele projeto. Pensei: “Nada mais coerente do que um trabalhador estar no Partido dos Trabalhadores”. Entrei acreditando. E, como sou por natureza aguerrido, defendia aquilo em que acreditava com unhas e dentes. Quando dou a minha palavra, procuro honrá-la até quando isso me traz prejuízos. Por isso, enquanto estive ali, defendi o partido com convicção.
Mas chegou um momento em que comecei a fazer perguntas. E algumas perguntas são perigosas para qualquer ideologia: o discurso corresponde à prática? Os valores pregados são realmente vividos? Comecei a estudar, a ler Karl Marx e outros pensadores da esquerda, a observar mais atentamente o funcionamento interno do partido e o que acontecia ao meu redor. Percebi, então, que havia uma distância enorme entre o que eu imaginava que o PT representava e o que eu de fato enxergava. O partido não correspondia à realidade que eu descobria. Tive conflitos internos, questionei, enfrentei problemas e, finalmente, tomei uma decisão difícil: saí do PT.
Mas existe algo que muita gente não entende: não é fácil abandonar uma ideologia na qual você investiu parte da sua vida. Não basta mudar a carteira de filiação. Existe uma ruptura emocional, intelectual e até social. Eu mesmo passei por outros partidos de esquerda antes de romper definitivamente com aquela visão de mundo. Talvez seja exatamente por isso que eu compreenda tão bem quem ainda permanece preso a uma determinada ideologia. A pessoa não está defendendo apenas um partido. Muitas vezes, está defendendo a própria história, as amizades, as discussões que travou, as bandeiras que levantou e tudo aquilo em que passou anos acreditando.
É aí que entra a dissonância cognitiva, estudada por Leon Festinger: quando a realidade entra em choque com uma crença na qual investimos profundamente, admitir o erro pode ser doloroso. Então, em vez de mudar a crença, muitas vezes o ser humano tenta encontrar uma explicação que preserve aquilo em que já acreditava. E quanto maior o investimento emocional, mais difícil a ruptura. Eu conheço isso porque vivi na pele.
Por isso, hoje, quando vejo alguém defendendo cegamente um projeto político diante de contradições evidentes, não penso simplesmente que aquela pessoa é ignorante. Às vezes, ela está apenas presa à própria história. Eu também já estive. A diferença é que chegou um momento em que precisei ter coragem de olhar para trás e dizer: “Eu estava errado”. E essa, talvez, tenha sido uma das decisões mais importantes da minha vida.
Mudar de ideia não é fraqueza. Fraqueza é perceber a verdade e continuar defendendo a mentira apenas por vergonha de admitir o erro. Ter coragem de rever conceitos, estudar, questionar e mudar de caminho não diminui ninguém. Pelo contrário: demonstra que a consciência ainda está livre.
Não conto essa história para dizer que sou melhor do que quem continua acreditando naquilo em que um dia eu acreditei. Conto porque fui parte disso. E, justamente por ter estado lá, por ter defendido com tanta força e por ter enfrentado a dor do rompimento, posso dizer uma coisa: às vezes, a maior demonstração de coragem não é lutar até o fim por aquilo em que você acredita.
É ter coragem de admitir que você estava errado e começar de novo.























