Por Mário Plaka (*)
Em um tempo em que grande parte do debate político se perde em narrativas rasas e discussões superficiais, há uma forma muito antiga e profunda de observar a realidade: olhar os fatos à luz de princípios. A própria Bíblia traz ensinamentos que ajudam a compreender o comportamento humano, inclusive quando ele se manifesta no exercício do poder.
No Evangelho de Mateus está escrito: “Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar frutos bons… pelos seus frutos os conhecereis” (Mateus 7:17-20). Já no livro de Amós encontramos outra pergunta direta e extremamente reveladora: “Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?” (Amós 3:3).
Esses dois versículos, colocados lado a lado, oferecem uma lente poderosa para observar a política brasileira. Não se trata apenas de religião, mas de uma leitura sobre natureza humana, liderança e alianças. Quando olhamos para os governos, para os ministérios, para as agências reguladoras e para as indicações feitas ao longo dos anos — inclusive para cargos extremamente relevantes como os do Supremo Tribunal Federal — percebemos que nada acontece de forma isolada. Toda indicação carrega um caminho político, articulações, aproximações e interesses.
É exatamente nesse ponto que a pergunta bíblica se torna atual: andarão dois juntos se não houver acordo? Quando alguém chega a um cargo de grande poder dentro da estrutura do Estado, dificilmente isso ocorre por acaso. Houve aproximação política, houve articulação, houve confiança e houve alinhamento mínimo de visão ou de interesses. Essa é a dinâmica do poder em qualquer democracia.
Por isso, quando a sociedade observa a atuação dessas autoridades — seja no Executivo, no Legislativo ou em instituições centrais da República — aquilo que se vê na prática são os frutos. E frutos sempre revelam a árvore que os produziu. Se são bons ou ruins, cabe à sociedade analisar, avaliar e tirar suas próprias conclusões.
Essa é uma análise de conjuntura que hoje poucas pessoas se dispõem a fazer. Muitos preferem olhar apenas para discursos, promessas ou narrativas momentâneas. Mas compreender a política exige observar o conjunto da obra: quem indicou quem, quem esteve ao lado de qual governo, quem articulou determinadas escolhas e quais posições passaram a ser defendidas depois que essas pessoas chegaram ao poder.
A política se revela nas companhias, nas escolhas e nas decisões. Por isso, quando se aproximam processos eleitorais — seja para presidente da República, governadores, senadores ou deputados — é fundamental que o eleitor observe mais do que discursos de campanha. É preciso olhar quem está ao lado de quem, quem caminhou junto nos últimos anos e quais frutos essas alianças já produziram para o país.
A Bíblia ensina que a árvore se conhece pelos frutos e também ensina que ninguém caminha junto sem algum tipo de acordo. Talvez seja exatamente esse olhar que esteja faltando a muitos brasileiros neste momento: observar os frutos e entender os acordos.
Por isso, a responsabilidade final volta sempre para o mesmo lugar: o eleitor. Em uma democracia, todo poder emana do povo. É o cidadão, no momento do voto, que define quais árvores continuarão produzindo frutos e quais caminhos o país seguirá. É hora de olhar com atenção para essa conjuntura, fazer uma análise crítica e entender que aquilo que está acontecendo no Brasil não é obra do acaso, mas resultado de escolhas políticas feitas ao longo do tempo.
Cabe agora à população decidir se quer continuar caminhando com os mesmos grupos que hoje conduzem o país ou se deseja uma verdadeira reformulação. Mas essa decisão exige consciência, responsabilidade e independência. Não se trata de se unir a qualquer projeto, de se vender politicamente ou de se entregar a qualquer grupo. Trata-se de escolher com clareza, observando os frutos, entendendo os acordos e assumindo a responsabilidade pelo futuro da nação.























