Por William Saliba (*)
O tabuleiro geopolítico das Américas sofreu o abalo mais previsível — e, ainda assim, mais sísmico — dos últimos tempos. A partir do próximo dia 5 de junho, os Estados Unidos reconhecerão oficialmente as duas maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas internacionais. A medida não é meramente burocrática ou de efeito retórico: ela traz consigo a autorização legal para que as Forças Armadas americanas atuem em território estrangeiro em legítima defesa da segurança de sua nação.
Para Washington, o argumento é matemático e humanitário, ancorado em uma tragédia interna: mais de 300 mil cidadãos norte-americanos perderam a vida nos últimos anos, vítimas diretas do tráfico e do consumo de drogas que inundam suas cidades. Sob a ótica do Capitólio, o combate ao narcotráfico escalou de um problema de segurança pública para uma ameaça direta à sobrevivência nacional.
Do outro lado da trincheira, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a esquerda brasileira correm para levantar as velhas barreiras ideológicas, classificando a decisão como uma afronta intolerável e um ataque cirúrgico à “soberania nacional”. É o choque de duas narrativas que utilizam a mesma palavra, mas com significados opostos.
De um lado, a soberania da proteção à própria população; do outro, a soberania territorial usada como escudo político. Diante desse cenário, ecoa com precisão cirúrgica a frase proferida recentemente por um comentarista do Canal Mundial Telenotícias: “Soberania é o último recurso linguístico dos canalhas”.
Nos últimos meses, a esquerda brasileira tem operado nos bastidores e na diplomacia para evitar o reconhecimento do PCC e do CV como entidades terroristas, mantendo-se firme na rejeição ao recém-formado Escudo das Américas.
No entanto, enquanto Brasília se apegava à retórica da não intervenção, agências de inteligência do porte da CIA, do FBI e do Mossad trabalhavam em silêncio, acumulando um volume avassalador de provas consistentes. O diagnóstico dessas agências é sombrio: o financiamento do tráfico de drogas não apenas financia o crime nas periferias, mas infiltrou-se e corrompeu as estruturas mais profundas dos Três Poderes da República.
A ignição política para que o governo americano batesse o martelo ocorreu após as reuniões estratégicas do senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, com autoridades americanas, cumprindo um convite do próprio Donald Trump. A articulação da oposição selou o destino de uma decisão que Washington já desenhava há meses.
Ao presidente Lula, restou apenas o lamento público improvisado e eivado de ressentimento, como o registrado hoje:
“Estou muito triste hoje com a notícia de que o secretário dos Estados Unidos, um tal de Marco Rubio, disse que os nossos criminosos aqui são terroristas e que os americanos podem fazer intervenção. Por que eu estou triste? Primeiro, porque esse tal de Comando Vermelho e esse tal de PCC são terroristas para as comunidades e para a sociedade brasileira.”
As declarações de Lula revelam um mandatário acuado pela realidade dos fatos. Ao admitir que as facções são, de fato, terroristas para o povo brasileiro, o presidente expõe a incapacidade crônica de seu próprio Estado em proteger os cidadãos, invalidando o próprio argumento de soberania que tenta defender. Como diz o ditado popular: “Quem fala demais, dá bom dia a cavalo”.
Ao insistir na retórica inflamada contra a superpotência do Norte, enquanto o crime organizado dita as regras em solo pátrio, o atual governo brasileiro isola-se em um canto perigoso do xadrez global. Se continuar a bobear e a desafiar a nova doutrina de segurança americana, Lula pode acabar tendo que dar o seu próximo “bom dia” no exílio, seja em Moscou ou em Pequim.
A soberania de um país se constrói com autoridade, lei e ordem, não com discursos vazios que protegem, por tabela, os maiores inimigos do próprio povo.





















