Gilmarpalooza, feriados e a sutil arte de adiar o país

Junho, conhecido no hemisfério norte como o início do verão e da produtividade, por aqui funciona como um buraco negro no PIB

Por William Saliba

No Brasil, a complexa engrenagem da ciência econômica e os crônicos dilemas sociais parecem ter encontrado uma solução revolucionária, digna de exportação: a revogação temporária da realidade. Por aqui, indicadores incômodos como a inflação persistente, a recessão que espreita os setores produtivos, a violência urbana endêmica e as engrenagens sempre lubrificadas da corrupção institucionalizada simplesmente deixam de existir. Não por força de decretos eficientes ou reformas estruturais — ferramentas administrativas obsoletas —, mas pelo puro e simples agendamento de prioridades da nossa refinada elite política.



No calendário oficial de Brasília, os dramas da população são perfeitamente maleáveis e, com um pouco de traquejo diplomático, tudo pode ficar para depois.

O mês de junho, tradicionalmente conhecido no hemisfério norte como o início do verão e da produtividade, por aqui funciona como uma espécie de buraco negro no PIB. O pontapé inicial dessa suspensão temporal da descrença atende pelo pomposo nome de Fórum Jurídico de Lisboa — carinhosamente apelidado pelas más línguas da capital de Gilmarpalooza. Trata-se de um evento de magnitude ímpar, onde a alta corte, ministros de Estado, parlamentares e lobistas cruzam o Atlântico com malas cheias de teses jurídicas e retornam com bagagem cultural renovada.

É fascinante observar como os graves problemas constitucionais brasileiros ganham um frescor interpretativo quando debatidos às margens do Rio Tejo, sob a brisa europeia e regados a um bom vinho do Porto. Enquanto os tribunais em terra firme acumulam processos, a República se transfere temporariamente para Portugal, provando que o patriotismo da nossa elite é, acima de tudo, transatlântico.

Mas não sejamos injustos: o esforço de adiar o país não se restringe aos banquetes em Lisboa. Ao retornar ao solo pátrio, a liderança política e a máquina burocrática encontram o providencial feriado de Corpus Christi. É o momento perfeito para emendar a quinta-feira com a eternidade, permitindo que os exaustos servidores da pátria descansem do peso de suas gravatas.

Na sequência, o Nordeste acende suas fogueiras e abre as cortinas para as festas juninas. Longe de ser apenas uma manifestação cultural legítima e bela, o período junino transforma-se, para a classe política, em um formidável picadeiro de pré-campanha, onde o corpo-a-corpo com o eleitorado é camuflado pelo aroma de milho cozido e pelo som do sanfoneiro. Promessas de emendas parlamentares ganham o ritmo de quadrilha, e o erário público dança conforme a música.

Para coroar este inverno de absoluto alheamento, surge o colosso da Copa do Mundo. Quando a bola rola, o Brasil atinge o seu estado de nirvana burocrático. A economia real, aquela que insiste em cobrar impostos, gerar empregos e tentar sobreviver à burocracia sufocante, é convidada a fechar as portas mais cedo em dias de jogo. Afinal, como exigir produtividade de um povo cuja estabilidade emocional depende da saúde do tornozelo de um atacante milionário?

O comércio fecha, as indústrias reduzem o turno e os gabinetes de Brasília esvaziam-se numa velocidade que faria inveja a qualquer programa de desregulamentação econômica. Junho, portanto, se despede sem nunca ter de fato começado para os setores que carregam o país nas costas. É a consagração do Brasil como uma eterna ilha da fantasia, onde a realidade é apenas um detalhe incômodo que teima em atrapalhar a festa.

A ressaca desse banquete de distrações, contudo, é de tiro curto. Em julho, tão logo os refletores dos estádios se apaguem e o destino da redonda seja selado, inicia-se o aquecimento oficial para a verdadeira Copa do Mundo da elite: a corrida eleitoral. É quando os mesmos personagens que passaram as semanas anteriores em Lisboa ou pulando fogueira retornam à televisão com semblantes graves, fingindo surpresa com o tamanho da crise que eles próprios ajudaram a cultivar.

Independente do tão sonhado hexacampeonato ou de mais um vexame tático em campo, o veredicto das urnas em outubro nos lembrará de que a fantasia tem prazo de validade. O torcedor, enfim despido da camisa canarinho, terá de reencontrar o cidadão no espelho para encarar o caos instalado que não foi resolvido pelo drible da inflação ou pela jurisprudência de além-mar.

O Brasil, com sua resiliência histórica e vocação para o absurdo, sobrevive facilmente mais quatro anos sem um troféu de futebol mundial.

A verdadeira incógnita, que nem o mais otimista analista político consegue decifrar, é se o tecido social e a economia do país resistirão a mais quatro anos desse caos festivo, planejado e gourmetizado.

(*) William Saliba é jornalista profissional há 56 anos, detentor de vários prêmios no setor da Comunicação, membro fundador e presidente do Conselho da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados

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