Em depoimento prestado nesta segunda-feira (2) à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga supostas irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a ex-secretária Aline Bárbara Mota de Sá Cabral confirmou ter tomado conhecimento de uma negociação imobiliária envolvendo o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e a publicitária Danielle Miranda Fonteles, que atuou em campanhas do Partido dos Trabalhadores (PT).
Segundo o relato, a tratativa dizia respeito a uma casa localizada em Trancoso, no litoral sul da Bahia. Aline afirmou que soube inicialmente da aquisição do imóvel por Antunes e, posteriormente, foi informada de que a proprietária anterior seria Danielle. Ela disse, contudo, não ter certeza se a compra foi efetivamente concluída.
“Não sei se os trâmites foram finalizados ou se o imóvel já estava totalmente em nome dele”, declarou aos parlamentares.
De acordo com a ex-secretária, ela esteve na residência no início deste ano para orientar a governanta da casa. A viagem, segundo contou, foi feita de avião até Porto Seguro, onde teria sido recepcionada por um funcionário do empresário.
TRANSFERÊNCIA MILIONÁRIA SOB ANÁLISE
A CPMI teve acesso a relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontam uma transferência de R$ 5 milhões de Antunes para Danielle Fonteles. À imprensa, a publicitária afirmou que os valores estariam relacionados a parcelas da venda do imóvel. Segundo ela, o negócio não foi concluído em razão do bloqueio judicial das contas do empresário no âmbito da Operação Sem Desconto.
A confirmação de que tinha conhecimento da negociação ocorreu após questionamentos do relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar (União-AL). Inicialmente, Aline demonstrou resistência em responder sobre o assunto, mas acabou admitindo saber da tratativa, embora tenha afirmado desconhecer detalhes sobre cifras ou condições do acordo. Ela indicou que as conversas teriam ocorrido no fim de 2024.
ACESSO A COFRE E ROTINA NO ESCRITÓRIO
Durante o depoimento, Aline também foi questionada sobre sua atuação no escritório do empresário. Ela afirmou que possuía autorização para acessar o cofre da empresa e que, eventualmente, retirava recursos para cobrir despesas operacionais, como aquisição de materiais. Disse ainda que pode ter entregue valores ao motorista de Antunes para pagamentos, mas declarou não se recordar com precisão.
A ex-secretária afirmou que não fazia registros formais das retiradas e que não tinha conhecimento sobre o montante guardado no local. Segundo ela, não tinha acesso a contas bancárias nem participava de decisões financeiras estratégicas.
“Eu não realizava pagamentos e não tinha informações sobre a origem dos recursos ou o patrimônio dele”, declarou.
Aline também negou ter feito anotações relacionadas a percentuais destinados a agentes públicos ou participado de eventuais repasses indevidos. Questionada sobre suposta intermediação de recursos ou passagens aéreas para Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que não teve qualquer envolvimento.
A ex-secretária compareceu à comissão amparada por habeas corpus concedido pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe assegurou o direito de permanecer em silêncio em questões que pudessem resultar em autoincriminação. Apesar da garantia, ela respondeu a parte das perguntas feitas pelos parlamentares.
A CPMI também pretende ouvir o advogado Cecílio Galvão, cuja condução coercitiva foi mantida. O depoimento está previsto para quinta-feira (5). Ele deverá esclarecer contratos firmados com entidades investigadas por possíveis desvios envolvendo benefícios previdenciários.
A comissão segue com a coleta de depoimentos e análise de documentos para apurar a existência de irregularidades e eventual participação de agentes públicos e privados no esquema investigado.























