Por Clésio Gonçalves (*)
A criatividade do brasileiro é conhecida no mundo inteiro — mas, quando usada para driblar leis, ela deixa de ser virtude e se transforma em problema coletivo. A mais nova versão desse comportamento apareceu nas estradas mineiras: com a implantação do pedágio eletrônico free flow na BR-381, cresceu o número de motoristas que adulteram ou encobrem as placas dos veículos para escapar da cobrança.
Em conversa recente com um amigo da Polícia Rodoviária Federal (PRF), ouvi o relato de um cenário que revela muito sobre a cultura do nosso trânsito. Segundo ele, desde que o modelo free flow começou a operar na rodovia que liga Belo Horizonte a Governador Valadares — atualmente com dois pontos de cobrança em funcionamento —, aumentaram as ocorrências de placas adulteradas. O motivo é simples: evitar o pagamento. O resultado, porém, é grave.
A PRF já anunciou que deve intensificar a fiscalização nesses trechos. A adulteração de placas é crime, com previsão de multas pesadas, apreensão do veículo e até detenção, conforme o Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Além disso, trafegar em alta velocidade para tentar “enganar” as câmeras do sistema configura outra infração, igualmente passível de penalidade.
O free flow representa uma modernização necessária no sistema rodoviário: elimina filas, reduz emissões de poluentes e torna o tráfego mais fluido. O motorista não precisa parar — câmeras e sensores identificam automaticamente o veículo e cobram a tarifa. No entanto, o sucesso do sistema depende de um ingrediente que o Brasil ainda reluta em cultivar: a responsabilidade cívica.
Em outros países, o free flow já é rotina. Mas há exemplos de fracasso, como na África do Sul, onde o modelo precisou ser desativado por causa da inadimplência e da falta de comprometimento dos usuários. Por aqui, o risco é repetir a história. A resistência em pagar o pedágio — que, em teoria, garante a manutenção e a segurança da via — mostra como o “jeitinho” individual mina o funcionamento coletivo.
A evasão de pedágio não é apenas uma infração de trânsito grave; é também um retrato simbólico da relação que parte dos brasileiros tem com a lei: a de que ela vale até o ponto em que começa a incomodar. O mesmo cidadão que se indigna com buracos na estrada ou com a falta de policiamento é, muitas vezes, o que tenta escapar da taxa que financia esses serviços.
É preciso entender que a modernização das rodovias, a redução de acidentes e a melhoria do tráfego passam pelo compromisso de cada um. O “jeitinho” pode parecer inofensivo, mas, no fim, ele custa caro — não apenas no bolso de quem for pego, mas no atraso moral e estrutural de um país que insiste em achar que esperteza é sinônimo de inteligência.























