A recente inclusão do nome do procurador-geral da República, Paulo Gonet, em um documento produzido pela Polícia Federal gerou um clima de mal-estar no Ministério Público Federal (MPF). As conversas interceptadas indicam um grau de intimidade entre o entorno do chefe do MPF e o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco Master, provocando reações de perplexidade e questionamentos sobre a independência da Procuradoria-Geral.
O relatório da PF, que tem como foco principal a relação entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o empresário Daniel Vorcaro, trouxe à tona diálogos que envolvem o procurador-geral. As mensagens, trocadas entre Vorcaro e seu advogado, Ciro Passos, apontam para uma relação próxima com Gonet. Os textos citam desde o patrocínio de passagens aéreas internacionais para o filho de Gonet até encontros sociais regados a charuto e whisky. Além disso, uma foto de Passos e Gonet juntos foi encaminhada ao ex-dono do banco.
Embora o silêncio predomine nos fóruns de discussão oficiais da categoria — uma postura atribuída, segundo membros do MPF à CNN, a diretrizes recentes da atual gestão —, o incômodo é palpável nos bastidores. Procuradores apontam que Ciro Passos atua como lobista e frequenta os mesmos círculos que o procurador-geral. A avaliação interna é de que, mesmo não havendo denúncias contra o banco Master na época das mensagens, o nível de proximidade revelado afeta diretamente a percepção de imparcialidade, princípio fundamental da atuação do MPF.
A reação rápida de Gonet diante das revelações também foi alvo de escrutínio. O procurador-geral solicitou o arquivamento das investigações que o citavam, além das que envolviam Alexandre de Moraes, em questão de horas, abrindo mão do prazo regulamentar de cinco dias de que dispunha. Esse movimento ágil reforçou a percepção, já presente na categoria, de um alinhamento estreito entre Gonet e ministros do STF, como Moraes e Gilmar Mendes, o que, na visão de alguns procuradores, limitaria sua capacidade de atuação independente no atual cenário de crise.
A repercussão do caso revitalizou as discussões sobre a forma de escolha da chefia do Ministério Público da União. Lideranças da categoria começam a se mobilizar para cobrar que o próximo presidente da República, a partir de 2027, retome a tradição de nomear o procurador-geral a partir de uma lista tríplice eleita pelos pares — prática abandonada por Jair Bolsonaro em 2019 e ignorada por Luiz Inácio Lula da Silva. Há, inclusive, planos para buscar a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que torne a lista tríplice um requisito constitucional.
Procurado pela CNN, Paulo Gonet não se pronunciou sobre o teor do relatório da Polícia Federal ou sobre sua relação com Ciro Passos e Daniel Vorcaro.























