Por Mário Plaka (*)
Que a esquerda tem milhares de apoiadores e eleitores, disso não tenho dúvida. Quanto ao resultado da eleição presidencial, porém, há questionamentos que precisam ser enfrentados com seriedade. Muitos têm dúvidas, outros preferem não falar, seja por medo, conveniência ou falta de coragem. Mas não é nessa seara que quero entrar.
Meu objetivo é outro: falar de algo que observo há muitos anos, depois de eleições municipais, estaduais e federais. Quero falar da hipocrisia de uma parcela da sociedade que não tem coragem de assumir suas próprias convicções e que muda de posição conforme os ventos da política.
Basta uma eleição terminar para o comportamento de determinadas pessoas mudar. Casas são decoradas com bandeiras, cartazes e fotografias do vencedor. Pessoas que, até poucas horas antes, não demonstravam qualquer entusiasmo pela campanha aparecem festejando, abraçando os vitoriosos e se comportando como se tivessem participado ativamente daquela conquista.
Algumas se apresentam como apoiadoras, afirmam que votaram, vestem a camisa do vencedor e procuram demonstrar uma fidelidade que ninguém viu durante a campanha. Não se trata de condenar quem muda de opinião, reconhece um resultado ou deseja o bem do país. Trata-se de questionar quem mente sobre o próprio posicionamento, quem finge ter participado de uma vitória e quem transforma a própria consciência em moeda de conveniência. O problema não é comemorar uma vitória eleitoral. O problema é fingir que sempre esteve do lado vencedor quando, na verdade, estava apenas esperando para descobrir quem ganharia.
Neste segundo turno, o que se viu foi uma euforia parcial, quase ensaiada, concentrada principalmente entre aqueles que já têm vínculos declarados com os partidos e movimentos da esquerda. Houve comemorações, manifestações e demonstrações de apoio. Mas também chamou a atenção a postura de pessoas que apareceram por algumas horas, participaram do entusiasmo coletivo e depois desapareceram junto com os cartazes que nunca chegaram a colocar.
Alguns começaram a se apresentar como se tivessem apoiado o resultado desde o início, embora não houvesse demonstração pública anterior dessa posição. E, quando começaram a circular notícias e manifestações relacionadas à saída de Flávio Bolsonaro, ao posicionamento dos Estados Unidos e a comentários de outros países sobre a legitimidade e as condições do processo eleitoral brasileiro, muitos desses entusiastas se calaram.
O silêncio, por si só, não comprova fraude nem demonstra que houve irregularidade. Mas revela uma questão que merece reflexão: por que certas convicções são exibidas com tanta intensidade quando tudo parece favorável e desaparecem tão rapidamente quando o cenário muda? Será convicção ou conveniência? Será coragem ou cálculo?
E não faltam fatos que exigem esclarecimentos. Durante o processo eleitoral, houve denúncias e questionamentos sobre abuso de poder, ameaças, pressão sobre adversários e decisões institucionais que levantaram dúvidas sobre a igualdade de condições na disputa. São questões que precisam ser examinadas com documentos, datas, decisões e responsabilidades, sem transformar suspeitas em sentenças antecipadas.
Mas há um episódio particularmente grave, cuja cronologia, se confirmada nos termos divulgados, exige explicações: a notícia de uma ordem judicial de recolhimento de passaporte contra o adversário político pouco mais de cinco minutos após a divulgação do resultado eleitoral. Um documento de dezesseis páginas poderia ter sido elaborado, fundamentado e decidido em tão poucos minutos? Ou já estava redigido antes do resultado? Se o adversário tivesse vencido a eleição, aquela ordem teria sido cumprida da mesma maneira e naquele mesmo intervalo? São perguntas legítimas.
Não provam, isoladamente, uma armação, mas tampouco devem ser descartadas com arrogância por quem acredita que o poder dispensa explicações. Se a decisão já estava preparada, é necessário esclarecer quando foi elaborada, quais fatos a fundamentaram, quando foi assinada e por que sua execução ocorreu naquele momento. A Justiça não pode exigir confiança cega; precisa demonstrar que age dentro da lei, com imparcialidade, prudência e respeito ao devido processo legal.
O que preocupa não é apenas a velocidade de uma decisão, mas a possibilidade de que a precipitação, a perseguição política ou a ausência de cautela tenham substituído a serenidade que se espera de quem exerce uma função judicial. Magistrados não podem agir movidos por paixões políticas, assim como políticos não podem se considerar acima da lei. A autoridade de uma instituição não lhe concede licença para dispensar explicações. Pelo contrário: quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade.
Quando decisões de grande impacto surgem em circunstâncias que levantam dúvidas, cabe às instituições esclarecer os fatos e demonstrar a regularidade de seus atos. A confiança pública não se conquista pelo silêncio imposto aos questionadores, mas pela transparência de quem tem o dever de prestar contas.
Entretanto, volto ao ponto central: a hipocrisia. Não estou falando apenas de políticos, magistrados ou autoridades. Estou falando de gente comum, da nossa casa, da nossa rua, do nosso bairro e da nossa cidade. Pessoas que criticam a mentira quando ela vem do adversário, mas a aceitam quando favorece o próprio grupo. Pessoas que condenam o oportunismo dos outros, mas mudam de lado quando percebem que podem obter alguma vantagem. Gente que exige honestidade dos governantes enquanto não consegue ser honesta nem sobre aquilo em que acredita.
Um povo que não assume suas posições, que mente para parecer vencedor e que prefere agradar à multidão a sustentar a própria consciência torna-se vulnerável à manipulação. Afinal, quem não tem convicções firmes pode ser conduzido por qualquer discurso, qualquer promessa ou qualquer espetáculo.
É como entrar numa fila sem saber o que será entregue na ponta. A pessoa não conhece o conteúdo, não sabe se aquilo lhe serve, não pergunta de onde veio e nem sequer procura entender o que está recebendo. Simplesmente acompanha os demais porque acredita que, se tanta gente está ali, deve haver alguma vantagem.
Na política, acontece a mesma coisa. Muitos não examinam propostas, não verificam informações, não estudam os candidatos e não avaliam as consequências das próprias escolhas. Seguem a multidão, repetem frases prontas, vestem a camisa da ocasião e, quando percebem que o vento mudou, procuram outra fila. Depois reclamam de serem enganados. Mas como não ser enganado quando se desiste de pensar por conta própria?
Caráter não se mede pela idade, pela aparência, pela condição social ou pelo discurso. Há pessoas honestas e desonestas em palacetes e em palafitas, entre ricos e pobres, entre instruídos e sem instrução.
A hipocrisia não escolhe endereço, partido ou classe social. Ela se manifesta nas pequenas atitudes, nas mentiras convenientes, nas falsas amizades e na disposição de abandonar princípios para não desagradar à maioria. Quem não tem coragem de assumir aquilo em que acredita dificilmente terá coragem de enfrentar uma injustiça quando isso lhe custar alguma coisa.
A eleição passa, os cartazes são retirados, as bandeiras voltam para as gavetas e os discursos de ocasião perdem a força. O que permanece é o caráter de cada um. Os políticos devem ser cobrados por suas decisões, as instituições por seus atos e os cidadãos por suas escolhas. Não adianta exigir um país sério enquanto se alimenta, no cotidiano, a mesma cultura da mentira, do oportunismo e da conveniência que se condena nos outros.
A mudança de um país não começa apenas nas urnas; começa também quando cada pessoa decide parar de fingir, de seguir a multidão sem pensar e de vender suas convicções por aceitação social.
A pergunta que fica é simples, incômoda e necessária: quantas pessoas realmente defendem aquilo em que acreditam e quantas apenas vestem a camisa de quem parece ter vencido?
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)























