Por Mário Plaka (*)
Há uma pergunta que deveria nos fazer pensar: se alguém da nossa família precisasse hoje enfrentar uma doença grave ou uma internação prolongada, estaria fisicamente preparado para atravessar esse momento?
Quando falamos em saúde, normalmente pensamos em exames, medicamentos, consultas, diagnósticos e tratamentos. Tudo isso é importante e faz parte da medicina. Mas existe uma dimensão da prevenção que muitas vezes deixamos em segundo plano: a condição física que construímos antes de a doença aparecer.
O organismo não começa a se preparar para uma doença no dia em que ela chega. A preparação acontece muito antes, silenciosamente, nas escolhas que fazemos todos os dias.
Uma alimentação equilibrada, boas noites de sono, hidratação adequada, higiene e atenção à qualidade e à procedência dos alimentos, além da prática regular de atividade física, são atitudes aparentemente simples, mas fundamentais para a manutenção da saúde. E existe ainda um componente que merece atenção especial: a massa muscular e a força física.
Em uma doença grave, o organismo pode passar por um período de grande estresse e aumento das necessidades metabólicas. Em determinadas situações, especialmente durante internações prolongadas, pode ocorrer perda significativa de massa muscular e de força. Por isso, chegar a uma eventual doença com uma boa reserva funcional pode ser importante para enfrentar o período de tratamento e recuperação.
É aí que precisamos mudar a maneira como enxergamos a musculação e os exercícios de força.
Músculo não é apenas estética. Músculo é funcionalidade. É força para levantar-se da cama, caminhar, subir escadas, carregar uma sacola, tomar banho, cozinhar e realizar as tarefas mais simples da vida. É autonomia. É independência.
E essa preocupação se torna ainda mais importante à medida que envelhecemos. Depois dos 50, 60, 70 anos ou mais, preservar a força e a massa muscular deveria fazer parte da conversa sobre envelhecimento saudável. Não para transformar todo mundo em atleta, mas para evitar que o envelhecimento seja tratado como uma sentença inevitável de perda de autonomia.
Também precisamos prestar atenção ao que colocamos diariamente dentro do nosso corpo. Às vezes, chamamos de “lanche” aquilo que é apenas um produto ultraprocessado, carregado de açúcar, gordura, sal e aditivos. Outras vezes, consumimos alimentos cuja procedência, armazenamento ou preparo desconhecemos. E, pouco a pouco, escolhas aparentemente pequenas vão formando um padrão alimentar que pode prejudicar a saúde.
Não existe alimento milagroso capaz de construir, sozinho, um sistema imunológico forte. O que existe é um conjunto de hábitos que ajuda o organismo a funcionar melhor e a preservar suas reservas.
Comer melhor. Dormir melhor. Beber água. Movimentar o corpo. Fazer exercícios de força, quando apropriado. Manter acompanhamento profissional. Controlar doenças já existentes. Evitar o tabagismo e o excesso de álcool. Cuidar do peso e da alimentação.
Parece simples. E, justamente por parecer simples, muitas vezes deixamos para depois.
Mas são essas escolhas, repetidas durante anos, que constroem a nossa reserva de saúde.
Talvez a grande lição seja essa: não devemos esperar uma doença grave para descobrir o quanto nosso corpo estava preparado — ou despreparado — para enfrentá-la. A UTI é lugar de tratamento, não de preparação.
A preparação acontece muito antes, quando ainda estamos caminhando, trabalhando, cozinhando, subindo escadas, escolhendo o que colocar no prato e decidindo se vamos ou não movimentar o corpo.
Cuidar da saúde não significa viver com medo da doença. Significa viver com responsabilidade suficiente para compreender que o nosso corpo é o único lugar onde teremos de morar durante toda a nossa existência.
A reserva que poderá sustentar o nosso futuro começa a ser construída no presente.
E talvez essa seja uma das maiores formas de prevenção que podemos oferecer a nós mesmos e àqueles que amamos.
(*) O articulista e analista político Mário Plaka é sócio-fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados (Ajoia Brasil)























