Por William Saliba (*)
A política externa americana parece ter entrado em um paradoxo. Enquanto Washington demonstra força e capacidade de intervenção em diferentes pontos do planeta, os resultados concretos de suas ações continuam envoltos em incertezas.
A situação no Golfo Pérsico, por exemplo, permanece indefinida. Trump volta a anunciar o fim das negociações com o Irã e opta, mais uma vez, pelo estrangulamento econômico do país persa como instrumento de pressão, em substituição ao confronto militar direto.
Na Venezuela, os Estados Unidos conseguiram “extrair” Nicolás Maduro do centro do poder. Mas o sistema que sustentou a ditadura chavista permanece de pé, conservando sua estrutura política, militar e repressiva.
No Líbano, tampouco há sinais concretos de um acordo de paz iminente. Tudo indica que cada lado já tomou a sua decisão. Israel parece caminhar para uma nova escalada. O Irã, por meio de seu principal representante na região, o Hezbollah, não demonstra disposição para recuar. E, em Beirute, o governo libanês continua exibindo sua impotência diante de um quadro político e militar que ultrapassa a sua própria capacidade de controle.
Há, porém, uma vítima comum em todo esse gigantesco tabuleiro de xadrez geopolítico: a população.
O estrangulamento econômico do Irã tende a aprofundar a recessão e a agravar as dificuldades da população civil, submetida ao controle da Guarda Revolucionária e com pouca capacidade de reação diante do poder do regime.
O mesmo ocorre na Venezuela. Diosdado Cabello, ministro do Interior, Justiça e Paz, permanece como uma das figuras centrais do poder chavista e é apontado como um dos homens mais influentes do regime. Enquanto as disputas pelo controle político continuam nos bastidores, a população permanece submetida à repressão e às consequências de uma crise que parece não ter fim.
No Oriente Médio, o povo libanês continua preso entre a frieza da diplomacia e o fogo dos bombardeios. E aí está uma das grandes contradições dessa crise: a população paga o preço por decisões que, muitas vezes, não tomou e sobre as quais não possui qualquer poder de influência.
À medida que o Líbano busca recuperar plenamente sua soberania, surge uma questão inevitável: qual será o preço imposto aos libaneses para recuperar um direito que o Estado jamais deveria ter perdido?
Esse é o drama que se repete nesses e em tantos outros países transformados em peças de um jogo internacional. Governos negociam, potências pressionam, exércitos se movimentam, organizações armadas resistem, diplomatas discutem. Mas, enquanto o jogo continua, são os cidadãos comuns que perdem empregos, liberdade, segurança, alimentos e, muitas vezes, a própria vida.
Compete à política de Estado norte-americana — e às demais potências que exercem influência nesses conflitos — compreender que não basta iniciar operações, impor sanções ou derrubar lideranças. É preciso concluir os processos e criar condições para que as populações submetidas a regimes autoritários, guerras e crises permanentes possam, finalmente, exercer o direito à liberdade, à segurança e à democracia.
Vidas humanas não podem permanecer aguardando, “sine die”, o momento do xeque-mate final nesse interminável jogo de xadrez.
Porque vidas humanas não são peças de um tabuleiro.
Elas têm prazo.
E, para milhões de pessoas que vivem sob a guerra, a repressão e a fome, esse prazo pode ser muito curto.























