Por Mário Plaka (*)
Contradição é uma coisa. Hipocrisia é outra. Manipulação é outra ainda. Mas quando as três aparecem juntas, o cidadão precisa parar e perguntar: eu estou diante de um princípio ou apenas diante de um discurso político? A política brasileira está cheia de gente que diz defender uma coisa, mas age de maneira diferente quando o poder muda de mãos.
Dizem defender o trabalhador. Mas o trabalhador está realmente sendo colocado no centro das decisões ou está sendo transformado em dependente permanente do Estado? Dizem defender a mulher. Mas essa defesa vale também quando se trata de regimes autoritários cujas práticas entram em choque com os direitos que dizem proteger? Dizem defender a liberdade religiosa. Então por que tantas vezes o cristianismo aparece como alvo de críticas, deboches ou tentativas de deslegitimação? Será que o princípio é realmente universal ou só funciona quando interessa ao próprio lado?
E existe uma pergunta ainda mais incômoda quando o assunto é socialismo e comunismo: se determinado modelo é apresentado como tão bom para a sociedade, por que tantos de seus defensores não escolhem viver nos países onde esse modelo foi ou é aplicado? Por que o discurso de igualdade costuma conviver tão tranquilamente com grifes internacionais, carros de luxo, viagens ao exterior, hotéis sofisticados, tecnologia de última geração e todo o conforto proporcionado pelo mercado capitalista?
O problema não é alguém possuir um carro caro, usar um iPhone ou viajar. A pergunta é outra: por que aquilo que é apresentado como privilégio ou símbolo da burguesia quando está nas mãos dos outros passa a ser aceitável quando está nas próprias mãos? Igualdade para quem? Sacrifício para quem? E, principalmente: o princípio vale para todos ou existe uma regra para o povo e outra para quem ocupa o poder?
As viagens oficiais também colocam essa discussão diante do contribuinte. Em 2025, as viagens internacionais de Lula custaram pelo menos R$ 44,4 milhões, segundo levantamento baseado em dados oficiais. Em setembro de 2026, somente a hospedagem de parte da delegação brasileira em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU, chegou a R$ 3,23 milhões em menos de 48 horas, sem incluir a hospedagem do próprio presidente na residência oficial brasileira junto à ONU. Foram autorizadas viagens para pelo menos 73 integrantes do Executivo.
Agora responda você: quando milhões de reais do dinheiro público são gastos em uma viagem oficial, qual deve ser o limite entre necessidade institucional e conforto? E se existem brasileiros esperando consulta, exame, cirurgia ou medicamento, não seria legítimo perguntar se cada gasto dessa natureza está sendo feito com a mesma preocupação que o cidadão tem quando precisa pagar uma conta no fim do mês?
Não é preciso transformar uma despesa oficial em crime para fazer uma pergunta legítima. O dinheiro público precisa ser gasto apenas porque pode ser gasto ou porque deve ser gasto? E quando determinadas despesas são protegidas por sigilo, o cidadão não tem o direito de perguntar por quê? O sigilo, quando previsto em lei, não significa automaticamente irregularidade. Mas justamente por envolver dinheiro público, não deveria existir uma obrigação ainda maior de justificar aquilo que pode ser divulgado e aquilo que não pode?
A contradição aparece também quando o assunto é segurança. Existem setores da esquerda que criticam a atuação policial, questionam políticas de armamento e defendem maiores restrições às armas. Mas, quando a ameaça chega perto de uma autoridade, quem aparece para protegê-la? Polícia. Segurança particular. Agentes armados. Veículos protegidos. Então por que aquilo que é considerado necessário para proteger uma autoridade pode ser considerado desnecessário ou até perigoso quando se trata do cidadão comum? Se a polícia é necessária quando o perigo bate à porta, por que o cidadão que vive diariamente exposto à violência não deveria também poder contar com segurança? Se armas são perigosas, por que o problema desaparece quando elas estão nas mãos dos seguranças que protegem autoridades?
E chegamos às notícias falsas. Aqui a pergunta talvez seja ainda mais importante: quem decide o que é mentira e qual será o critério aplicado? O Inquérito 4.781, conhecido como o inquérito das notícias falsas, foi instaurado no STF para investigar notícias fraudulentas, ameaças e ataques contra a Corte e seus ministros. Houve determinações de remoção de conteúdos, bloqueios e outras medidas.
A discussão jurídica sobre os limites dessas decisões continua sendo objeto de controvérsia. Mas existe uma pergunta que qualquer cidadão pode fazer: se a mentira é perigosa quando vem de um lado, ela deixa de ser perigosa quando vem do outro?
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida tornou essa discussão ainda mais visível. Circulou uma informação falsa envolvendo Flávio Bolsonaro e o título de Padroeira do Brasil. A questão chegou ao Judiciário e provocou decisões divergentes entre ministros. Lula também comentou o episódio publicamente. Então pergunte a si mesmo: se uma informação falsa pode influenciar milhões de pessoas, o critério para combatê-la deve depender de quem foi beneficiado ou prejudicado por ela? E se a liberdade de expressão é um direito fundamental, ela deve valer somente para as opiniões que agradam ao poder ou também para aquelas que incomodam?
É aí que o leitor precisa sair da arquibancada. Não importa se você é de direita, esquerda, centro ou simplesmente não gosta de política. Pergunte: eu condenaria essa mesma atitude se fosse praticada pelo meu próprio grupo? Se a resposta for não, será que estou defendendo um princípio ou uma torcida? Se uma informação falsa prejudica meu adversário, eu a denuncio; mas se beneficia minha causa, eu a relativizo? Isso é defesa da verdade ou conveniência política?
E vale para tudo. Quem diz defender o trabalhador precisa aceitar que o trabalhador faça perguntas. Quem diz defender a mulher precisa aceitar que a mulher questione. Quem diz defender a liberdade religiosa precisa aceitar que o cristão também tenha voz. Quem diz combater desinformação precisa aceitar o mesmo critério para aliados e adversários. Quem diz defender a igualdade precisa explicar por que existem padrões de vida tão diferentes entre o discurso político e a prática pessoal de alguns de seus representantes.
Porque talvez a pergunta mais importante não seja “de que lado você está?”. Talvez seja: que princípio você está disposto a defender mesmo quando ele prejudica o seu próprio lado?
O problema não é apenas a esquerda. O problema é qualquer grupo político que transforma princípio em ferramenta e verdade em instrumento de poder. A mentira não fica menos mentirosa quando vem do nosso lado. O abuso não fica menos abusivo quando beneficia quem admiramos. A contradição não deixa de existir porque foi praticada por alguém que vota como nós.
Por isso, antes de acreditar, compartilhar ou defender qualquer narrativa política, faça três perguntas: quem está dizendo? O que os fatos comprovam? E eu pensaria da mesma maneira se o nome envolvido fosse o do meu adversário?
Talvez seja justamente aí que comece a liberdade de pensamento. Porque cidadão que não questiona vira massa de manobra. E cidadão que questiona começa a enxergar.
Pensar faz bem. Conferir faz melhor. E acreditar cegamente em qualquer lado é entregar a própria consciência para alguém administrar.























