Por Mário Plaka (*)
Há dores que não cabem em estatísticas. Uma delas é a dor de uma família que, de repente, perde uma criança de vista.
É a mãe que perde o chão. O pai que não sabe para onde correr. A avó que passa a viver olhando para a porta, na esperança de vê-la se abrir novamente.
Quando uma criança desaparece, cada minuto importa. É justamente por isso que este artigo não pretende apenas questionar o que o Estado faz depois de um desaparecimento. A pergunta mais importante é outra:
O que o Estado está fazendo para impedir que uma criança desapareça? Porque segurança pública também significa prevenção.
O Brasil já dispõe de instrumentos importantes para enfrentar esse problema. Existe o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, o Alerta Amber, bancos de dados integrados, inteligência policial, tecnologias de reconhecimento de imagens, sistemas de monitoramento por câmeras e mecanismos de cooperação entre instituições. Mas isso não basta.
É preciso abandonar a lógica de agir apenas depois da tragédia. O desafio é antecipar o problema.
Cabe perguntar às autoridades: onde está a política nacional de prevenção voltada à proteção de crianças em shoppings, supermercados, terminais de transporte, parques, grandes eventos, festas populares, shows e outros locais de intensa circulação de pessoas? Por que ainda não existem protocolos nacionais obrigatórios de prevenção e resposta imediata? Por que grandes estabelecimentos e organizadores de eventos não são obrigados a manter equipes treinadas para agir nos primeiros instantes após o desaparecimento de uma criança?
Imagine uma criança que desaparece dentro de um shopping. Em vez de a família entrar em desespero e iniciar sozinha uma busca desesperada, deveria existir um protocolo automático: equipes de segurança imediatamente acionadas, monitoramento das portas, análise em tempo real das câmeras, controle dos acessos, comunicação interna instantânea e, quando necessário, acionamento imediato das forças policiais. O mesmo deveria ocorrer em supermercados, parques, terminais rodoviários e aeroportuários, estádios, centros de convenções e demais ambientes de grande circulação.
Não se trata de transformar estabelecimentos privados em delegacias. Trata-se de criar uma primeira rede de proteção, preparada para ganhar justamente os minutos que podem decidir o desfecho de um caso.
E aqui surge uma reflexão inevitável: se uma criança desaparece dentro de um local privado de grande circulação, por que esse estabelecimento não deveria ser obrigado a possuir um protocolo específico de resposta imediata, integrado aos órgãos de segurança pública?
Ninguém propõe substituir a atuação da Polícia Civil, da Polícia Militar ou de qualquer outra instituição. A proposta é criar uma barreira inicial de proteção: profissionais treinados, procedimentos definidos, preservação imediata das imagens, identificação de movimentações suspeitas, controle estratégico das saídas e comunicação instantânea com as autoridades competentes.
Prevenir é agir antes. É exatamente nesse ponto que o Estado precisa avançar. Se houver atuação de organizações criminosas envolvidas no desaparecimento de crianças, o enfrentamento não pode começar apenas depois que uma vítima desaparece.
É indispensável fortalecer a inteligência policial para identificar padrões, cruzar informações, monitorar rotas, analisar dados e ampliar a cooperação entre Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal, Ministério Público e demais órgãos responsáveis pela investigação.
Sempre que houver indícios da atuação de organizações criminosas, essas estruturas devem ser investigadas e desarticuladas com rapidez e rigor. O Estado não pode permanecer permanentemente correndo atrás do prejuízo. É preciso antecipar-se ao crime.
Vale perguntar. Quantas crianças poderiam ser protegidas por uma política preventiva mais eficiente? Quantos desaparecimentos poderiam ser evitados por protocolos claros e respostas coordenadas? Quantas famílias deixariam de enfrentar uma das maiores tragédias que um ser humano pode viver?
O Brasil já possui uma Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas e a legislação determina que a busca seja iniciada imediatamente, sem qualquer necessidade de aguardar 24 horas para o registro da ocorrência.
Esse foi um avanço importante. Mas ainda não é suficiente. Precisamos transformar prevenção em prioridade; transformar tecnologia em ação; transformar informação em inteligência; transformar inteligência em proteção. E transformar a proteção das crianças em uma verdadeira política de Estado.
Este artigo dirige-se ao Governo Federal, aos governos estaduais e municipais, ao Ministério da Justiça, às Polícias Civil, Militar e Federal, ao Ministério Público, ao Poder Judiciário, ao Congresso Nacional e a todos os responsáveis pela segurança pública brasileira.
A pergunta permanece simples e direta: oque está sendo feito hoje para impedir que uma criança desapareça amanhã? Porque, depois que ela desaparece, a corrida contra o tempo já começou. E, muitas vezes, esse tempo decide destinos.
Enquanto isso, o Brasil investe recursos em inúmeras áreas: viagens, eventos, publicidade institucional, estruturas administrativas e disputas políticas. Não se afirma que todo gasto público seja desnecessário. Afirma-se apenas que prioridades revelam escolhas. E poucas escolhas são tão importantes quanto proteger uma criança.
Estamos às portas de mais um período eleitoral. Haverá discursos, promessas, slogans e campanhas. Mas existe uma pergunta que deveria ocupar o centro de qualquer programa de governo: qual é o plano concreto para prevenir o desaparecimento de crianças e garantir uma resposta imediata nos primeiros minutos de cada ocorrência?
Não bastam discursos. São necessários protocolos, prevenção. integração, Inteligência, tecnologia, investigação. resposta rápida, acompanhamento permanente e resultados concretos.
Porque uma criança desaparecida jamais será apenas um número, é um filho, é uma filha, um neto, uma irmã. É uma família inteira que perde o chão.
Quando uma criança desaparece, o Brasil inteiro deveria procurá-la. Mas, antes disso, o Brasil inteiro deveria trabalhar para que ela jamais desaparecesse.
Prevenir é proteger. Agir no primeiro minuto é salvar tempo.
E, muitas vezes, salvar tempo significa salvar uma vida.
IMPORTANTE:
Comunique o desparecimento imediatamente às autoridades policiais 190 ou 197 ou, em Minas Gerais: 0800 282 8197.























