Por Mário Plaka (*)
Há mais de quatro anos, venho insistindo na mesma tecla: o Brasil precisa de um eleitor esclarecido. Não de um eleitor conduzido por conversa pronta, promessa de última hora, placa de obra ou discurso ensaiado em período eleitoral. Porque é justamente quando a eleição se aproxima que aparecem as estratégias, as alianças e as velhas tentativas de convencer o cidadão de que determinado político é indispensável porque “manda dinheiro para o município”.
Vamos colocar uma coisa no lugar: deputado não tira dinheiro do bolso para mandar para a prefeitura. Senador não tira dinheiro do bolso. Governador não tira dinheiro do bolso. Presidente não tira dinheiro do bolso. O dinheiro público vem da sociedade. Vem do imposto, da taxa, do trabalho, da produção e do esforço de milhões de brasileiros. Vem do gari, do pintor, do pedreiro, do autônomo, do empresário, do profissional liberal e de todo cidadão que trabalha e paga a conta. Portanto, quando um político participa da destinação de um recurso público, ele está exercendo uma função institucional. Não está fazendo caridade com dinheiro próprio.
E é aí que começa a pilantragem política: quando tentam vender ao eleitor a ideia de que a obra pública é um presente pessoal do deputado, do senador ou de qualquer outro agente político. Não é. A obra é pública. O dinheiro é público. E o cidadão tem todo o direito de perguntar quanto foi gasto, por que foi gasto, quem fiscalizou e qual parlamentar realmente trabalhou pelo interesse da população. O eleitor não pode aceitar que dinheiro que saiu do próprio bolso volte para sua cidade apresentado como favor de quem ocupa um mandato.
Mas existe outra molecagem política que precisa ser enfrentada: a fabricação de candidatos a partir da fama. Um sujeito fica conhecido na internet, conta piada, faz dancinha, vira influenciador, ganha seguidores e, de repente, aparece como candidato ao Congresso Nacional. Outros vêm do futebol, da televisão ou de qualquer outra área de exposição pública. E atenção: não há problema algum em um jogador de futebol, humorista, médico, empresário, youtuber ou qualquer profissional entrar para a política. O problema é acreditar que popularidade substitui preparo.
O Congresso Nacional não é palco para contador de piada, nem extensão de rede social. É ali que se discutem leis, orçamento, impostos, segurança, saúde, educação e decisões que atingem a vida de milhões de brasileiros. O país precisa de parlamentares que tenham conhecimento, coragem para debater, capacidade para fiscalizar e responsabilidade para votar. Fama pode eleger. Seguidores podem eleger. Uma dancinha pode viralizar. Mas nada disso, sozinho, prepara alguém para representar o povo.
E não se trata de uma cruzada contra Nicolas, Tiririca, Caneta Azul ou qualquer outro nome. Esses nomes apenas personificam uma discussão muito maior. O que precisa ser questionado é o modelo que transforma o eleitor em torcida, o político em celebridade e o dinheiro público em propaganda eleitoral. O eleitor precisa parar de perguntar apenas “quem trouxe dinheiro para minha cidade?” e começar a perguntar “quem merece receber a minha procuração para representar o meu voto?”.
Porque voto não é pagamento de favor. Voto não é recompensa por emenda. Voto não é ingresso para show. Voto é procuração. E quem entrega essa procuração precisa saber exatamente para quem está entregando.
É por isso que continuamos defendendo o eleitor esclarecido. Não queremos eleitor manipulado por partido, por prefeitura, por deputado, por influenciador ou por qualquer estrutura política. Queremos cidadão capaz de olhar para o candidato e perguntar: o que você conhece? O que você fez? O que pretende fazer? E qual é a sua capacidade para representar o meu dinheiro e o meu país?
Porque, no final, a conta sempre chega para alguém. E ela chega para quem trabalha, para quem produz e para quem paga imposto. O político não está fazendo favor ao povo quando aplica dinheiro público. Ele está lidando com o nosso dinheiro.
Então, eleitor, fique atento. Em período eleitoral, quando começam a aparecer os salvadores da pátria, os donos das emendas, os candidatos fabricados pela internet e as estratégias de última hora, pense antes de apertar o botão. Não entregue o seu voto a quem tenta comprar a sua consciência com aquilo que já pertence a você.
Porque dinheiro público não tem dono político. E transformar eleição em espetáculo, favor e manipulação não é estratégia: é molecagem política.























