Por Mário Plaka (*)
Era uma vez, num reino não tão distante, um velho malandro que conhecia, como poucos, a arte de sobreviver às próprias trapalhadas. Tinha sido condenado. Primeira instância, segunda, terceira. Conhecia as grades por dentro e os corredores do poder por fora. E, embora estivesse preso, não lhe faltavam certas regalias — afinal, naquele reino, até a prisão podia ter tratamento diferenciado quando os amigos certos estavam do lado de fora.
O povo dizia:
— Esse homem nunca mais volta!
Mas o Mago das Narrativas já preparava a cartola.
— Calma — dizia ele. — No nosso reino, condenação pode virar argumento, sentença pode virar detalhe e o impossível pode ser perfeitamente possível.
E assim, num belo dia, o prisioneiro saiu.
Os mesmos que ontem o chamavam de corrupto passaram a explicar sua inocência. Os que diziam que ele voltaria à cena do crime começaram a abrir caminho para seu retorno.
E ele voltou. Não apenas para as ruas. Voltou para o comando do reino.
Mas havia um problema: o povo ainda lembrava.
Então, os Corvos confrades do Sistema globalizado tiveram uma ideia brilhante.
— Precisamos de uma cortina de fumaça.
E o Mago respondeu:
— Não. Precisamos de uma grande narrativa.
Nasceu, então, o grande inimigo invisível: o golpe, a ameaça, a conspiração, o perigo contra o reino.
E, para provar que o novo tempo havia começado, o rei inaugurou sua grande obra.
Não foi hospital. Não foi escola. Não foi estrada. Foi o Campo de Concentração da Democracia.
Ali, crianças, idosos, doentes, trabalhadores e gente de toda espécie podiam ser confinados enquanto o reino decidia o que fazer com eles. Alguns eram levados, depois, para a masmorra.
E havia uma curiosidade naquele reino: muitos descobriam primeiro a condenação e só depois tentavam descobrir pelo que exatamente haviam sido condenados.
O Guardião das Grades explicava:
— Aqui tudo é feito dentro da lei.
Um prisioneiro perguntava:
— Qual foi meu crime?
— Está nos autos.
— Posso ver?
— Claro.
— Quando?
— Quando o reino permitir.
— E quanto tempo ficarei aqui?
— O necessário.
— Necessário para quê?
O Guardião sorria:
— Para proteger a democracia.
Do alto da torre, o Bobo da Corte observava tudo.
Até que perguntou:
— Majestade, se, para proteger a democracia, precisamos prender quem pergunta, calar quem discorda e condenar sem que o condenado sequer consiga entender sua própria sentença… quem exatamente estamos protegendo?
Silêncio no castelo.
O Mago das Narrativas cochichou:
— Prendam o bobo.
E assim fizeram.
Naquele reino, a coisa mais perigosa não era ser corrupto. Era fazer a pergunta errada.
A corrupção podia ser explicada. A contradição podia ser esquecida. O escândalo podia ser coberto por outro escândalo. Mas a memória do povo… Ah, essa era perigosa.
Por isso, o sistema tinha aprendido a fabricar vilões, santos, inimigos e heróis conforme a conveniência do momento. E o velho malandro continuava sentado no trono.
Não porque tivesse mudado. Mas porque o reino havia aprendido uma velha técnica: quando não consegue apagar o passado, mude a narrativa sobre ele.
E assim termina a história do reino não tão distante.
Não com uma moral. Com uma pergunta:
Quando o poder precisa construir um campo de concentração para provar que está defendendo a liberdade, quem está realmente preso?
Qualquer semelhança com a Terra de bananas continua sendo, naturalmente, mera coincidência…























