Por Mário Plaka (*)
A declaração de Celso Amorim de que “é inadmissível matar um líder” não é uma frase qualquer. Ela carrega peso político, diplomático e moral. E exatamente por isso causa indignação.
Porque quando se fala em “líder”, estamos falando de quem ocupa o topo da estrutura de poder. Mas e os que estão na base? E as crianças atingidas por repressões? E os jovens mortos por protestarem? E as mulheres, os idosos, os civis comuns esmagados por regimes autoritários? A vida deles é menos inadmissível?
Não se trata de defender assassinatos ou execuções. Trata-se de coerência moral. Quando um representante de um governo que se declara democrático faz uma defesa enfática da intocabilidade de um chefe de Estado, mas não demonstra a mesma contundência ao falar das vítimas de regimes repressivos, a mensagem transmitida é devastadora: o poder é sagrado; o povo é colateral.
E a situação se torna ainda mais delicada quando o debate envolve países como o Irã, frequentemente acusado internacionalmente de financiar grupos armados e apoiar organizações classificadas por diversos países como terroristas. Ignorar esse contexto e reduzir a discussão à proteção abstrata de um “líder” soa, no mínimo, desconectado da realidade das vítimas desses conflitos.
Um governo democrático precisa ter clareza: direitos humanos não são seletivos. Não podem ser brandos com o poder e duros com o cidadão comum. Quando a fala oficial parece proteger a autoridade acima da população, ela atinge não apenas a diplomacia — atinge a própria credibilidade do discurso democrático.
O argumento jurídico de que execuções extrajudiciais não devem ser normalizadas é válido. Mas a ausência de equilíbrio na narrativa gera revolta. Porque o mundo já está cansado de ver autoridades blindadas enquanto o povo vira estatística.
Nenhum líder pode estar acima da responsabilização. Nenhum cargo concede imunidade moral. Se há acusações de financiamento de violência, de repressão brutal, de perseguição política, o centro do debate deve ser as vítimas — não a aura de intocabilidade de quem governa.
A democracia não pode funcionar como escudo para proteger poderosos enquanto os vulneráveis pagam o preço. Se a vida é um valor absoluto, ela precisa ser defendida com a mesma força para quem governa e para quem é governado.
Caso contrário, o discurso vira privilégio — e privilégio nunca foi sinônimo de justiça.























