O extremismo pode estar de volta: O que há por trás das ameaças a Flávio Bolsonaro?

É impossível analisar esse caso de forma isolada, ignorando o contexto explosivo que o cerca

Por William Saliba

O pesadelo parece estar de volta. Como um tenebroso remake de um filme de suspense que o Brasil insistia em esquecer, a sombra da violência política volta a se projetar sobre a família Bolsonaro. Desta vez, o alvo central de um suposto plano de assassinato é o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ).



A gravidade do cenário ganhou contornos oficiais no final da tarde de hoje (28/05). Conforme revelado pelo site da revista Veja, a Polícia Legislativa do Senado Federal abriu uma apuração preliminar para investigar ameaças diretas contra o parlamentar. O estopim do caso foram declarações bombásticas feitas pelo funkeiro MC Misa durante uma transmissão ao vivo nas plataformas TikTok e YouTube.

Segundo o boletim de ocorrência registrado na última quarta-feira (27) pela Coordenação de Polícia de Investigação e Judiciária do Senado, o artista afirmou textualmente que a influenciadora digital Deolane Bezerra estaria envolvida na articulação de um atentado contra o senador. As falas ocorreram no canal “Frank Clips”, um espaço comandado por um influenciador que se autointitula “ex-PCC” e que foca sua audiência em debates sobre o crime organizado.

O teor das declarações anexadas ao pedido de investigação é alarmante. Disse MC Misa:

“Inclusive, o atentado agora que o filho do Bolsonaro vai sofrer, que foi articulado com Marcelinho e com a Deolane, Deolane articulou um atentado agora pro filho do Bolsonaro. Então são situações que a gente, o mundo do funk, sabe tudo. A gente sabe o que tá acontecendo.”

Ao ser pressionado pelo entrevistador por mais detalhes — momento em que o condutor do canal se apressou em dizer que a responsabilidade pelas acusações era exclusiva do convidado —, MC Misa subiu o tom e escancarou a suposta motivação política do plano. Segundo ele, o crime estaria desenhado para impedir uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro em uma futura disputa presidencial.

“O que eu falo é que as pessoas que estão envolvidas nesse atentado não são nem criminosos. É político. Pessoas que têm ligação com a Deolane, e ela mapeia essa situação e ela faz acontecer. Porque sabem que se o Flávio Bolsonaro ganhar, vai afetar muito nos trâmites dela. Então daria pra acontecer, porém eu já tô falando agora, um atentado contra o Flávio Bolsonaro”, disparou o funkeiro.

O documento que deflagrou as ações foi protocolado pelo policial legislativo Bruno Ribeiro Fonseca, fundamentado em relatórios produzidos pelo setor de inteligência da Polícia do Senado. O que se pede agora é uma “verificação preliminar da procedência de informações”. Se os indícios se mostrarem consistentes, um inquérito formal será instaurado.

É impossível analisar esse caso de forma isolada, ignorando o contexto explosivo que o cerca. Toda essa repercussão ferve poucos dias após a prisão de Deolane Bezerra, em uma megaoperação conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo. A influenciadora, que arrasta uma multidão de mais de 21 milhões de seguidores no Instagram, está sob a lupa da Justiça por suposta ligação com integrantes da cúpula da facção criminosa PCC, incluindo familiares de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Deolane, por sua vez, nega veementemente qualquer envolvimento com atividades ilícitas e contesta as acusações.

Seja a denúncia de MC Misa uma revelação de bastidores ou uma declaração a ser rigorosamente checada, o fato é que ela joga gasolina em um país que ainda sangra pela polarização. Em um momento tão conturbado na política brasileira e na própria geopolítica mundial, onde a eliminação do adversário por vezes flerta com a realidade, indícios como esse não podem ser negligenciados ou tratados como mero folclore de internet.

A linha que separa o discurso de ódio da ação violenta tem se mostrado perigosamente tênue nos últimos anos. As instituições precisam agir com velocidade máxima e precisão cirúrgica para sufocar qualquer tentativa de atentado à vida e à democracia.

No tabuleiro político atual, o recado é claro e urgente: todo o cuidado é pouco a partir de agora.

(*) William Saliba é jornalista profissional há 56 anos, detentor de vários prêmios no setor da Comunicação, membro fundador e presidente do Conselho da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados

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