O sistema judiciário do Irã condenou duas mulheres à pena de morte pelo envolvimento nas manifestações contra o governo ocorridas no país no início deste ano. As sentenças, divulgadas por organizações de direitos humanos nesta segunda-feira (31), representam a primeira vez que participantes femininas dos protestos populares recebem a punição máxima.
Os processos ocorreram de forma separada, mas ambos estão ligados aos episódios de mobilização popular registrados na cidade de Isfahan. Uma das sentenciadas é Taraneh Rahimi, de 20 anos. Segundo entidades como a Human Rights Activists News Agency (HRANA) e o grupo norueguês Hengaw, a jovem foi responsabilizada por distúrbios em uma praça pública que resultaram no óbito de duas pessoas, incluindo um agente das forças de segurança. A defesa questionou a condução do julgamento, alegando falta de tempo para analisar as evidências e restrição de acesso aos autos processuais. Outros réus na mesma ação, como a irmã da acusada, receberam penas que chegam a 36 anos de prisão.
A segunda condenação recaiu sobre Leila Abolhasani, de 43 anos, acusada formalmente de incendiar um comércio local. A mulher foi sentenciada sob a tipificação legal de travar guerra contra Deus. Os familiares da ré contestam a versão oficial e argumentam que ela estava apenas gravando um vídeo do incêndio já em andamento. O processo foi encaminhado para revisão na Suprema Corte do país.
As decisões geraram alerta entre entidades internacionais. A organização não governamental Iran Human Rights apontou que o regime iraniano já havia executado 29 homens em decorrência da mesma onda de protestos, mas nenhuma mulher havia sido condenada à morte por motivações políticas até este momento.
A atual insatisfação popular no país teve início no fim do ano passado, impulsionada pelo colapso econômico e pela profunda desvalorização da moeda nacional frente ao dólar. Conforme a repressão estatal aumentava, as queixas econômicas evoluíram para um amplo movimento de contestação direta ao regime teocrático que governa o Irã desde 1979.
Relatórios independentes indicam que o governo respondeu aos atos com força sistêmica, empregando armas de fogo contra civis desarmados, além de promover prisões em massa acompanhadas de denúncias de tortura. Enquanto os observatórios de direitos humanos estimam mais de 5.800 mortes e 41 mil detenções, as autoridades iranianas reconhecem oficialmente cerca de 3.100 óbitos, atribuindo a responsabilidade da violência a grupos classificados como terroristas e a influências de governos estrangeiros.























