O jornal alemão Die Welt acusou, nesta quinta-feira, 29, o presidente Lula (Luiz Inácio Lula da Silva) de transformar o Judiciário brasileiro em instrumento de proteção de sua base política. No artigo “O Brasil ainda é um Estado de Direito?”, o correspondente Tobias Käufer criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio.
Käufer questionou as decisões judiciais tomadas contra Flávio depois da derrota eleitoral. No domingo, 25, a Polícia Federal pediu ao STF a apreensão dos passaportes do senador e a proibição de que ele deixasse o país. O pedido fazia parte de uma investigação por suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Na segunda-feira, 26, o ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos documentos e proibiu Flávio de sair do Brasil. O senador descumpriu a ordem. Ele desembarcou em Miami, nos Estados Unidos, na quarta-feira, 28, acompanhado da família.
O jornalista criticou a rapidez da atuação judicial. “Parecia que a Justiça brasileira, no centro de acusações de corrupção, estava apenas esperando para iniciar uma campanha de vingança contra o rival de Lula”, escreveu. Ele também destacou que alguns ministros do STF poderiam enfrentar processos de impeachment caso Flávio tivesse vencido a eleição.
Käufer criticou ainda a reação de Lula à ida do adversário aos Estados Unidos. Dois dias depois da vitória eleitoral, Lula afirmou que “quem não deve, não teme”. Para o correspondente, a declaração “soou como uma ordem de serviço”.
O judiciário sob Lula
Para sustentar as críticas, Käufer reuniu episódios que, segundo ele, abalaram a confiança dos brasileiros no Judiciário. Um deles é a influência do PT no STF: desde 2003, o partido indicou 15 dos 18 ministros nomeados no período. “É possível escolher os juízes de forma equilibrada ou instrumentalizá-los politicamente”, escreveu.
O correspondente apontou também uma diferença no tratamento dado pela imprensa internacional às nomeações. “Quando Bolsonaro indicou um juiz evangélico para o tribunal, houve grande indignação na mídia internacional”, afirmou, em referência a André Mendonça. “Quando Lula elevou seu advogado pessoal e um ministro de seu gabinete aos mais altos cargos judiciais, houve indiferença.”
O artigo citou a Transparência Internacional, investigada por ordem do ministro Dias Toffoli em 2024 por sua atuação em acordos de leniência da Lava Jato. Dois anos depois, em janeiro de 2026, a organização acusou o governo Lula de intimidação. A acusação veio depois de a Casa Civil questionar sua credibilidade ao responder a críticas sobre obras federais.
Liberdade de imprensa e asilo
As críticas se estenderam a Moraes, que autorizou medidas capazes de identificar fontes do jornalista Luís Pablo, autor de reportagens sobre o uso de veículos oficiais por familiares de Flávio Dino. A Polícia Federal havia alertado sobre o sigilo jornalístico, mas Moraes alegou suspeita de perseguição. O Die Welt apresentou o episódio como ameaça à liberdade de imprensa.
O jornal também citou a libertação de políticos condenados por corrupção. Criticou, ainda, o asilo concedido pelo Brasil a Nadine Heredia, ex-primeira-dama do Peru, condenada a 15 anos de prisão. Segundo Käufer, a Justiça brasileira não demonstrou interesse nas informações que ela poderia fornecer sobre o escândalo da Odebrecht.























