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Home Neimar Fernandes

Castigo não foi feito para ser esquecido

Redação por Redação
21 de janeiro de 2026
em Neimar Fernandes
Tempo de Leitura: 2 minutos de leitura
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Castigo não foi feito para ser esquecido

Castigo não foi feito para ser esquecido (Imagem: Pixabay)

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Por Neimar Fernandes (*)

Havia um tempo em que a justiça precisava ser ensinada com imagens fortes, quase brutais, porque o poder tende a esquecer rápido aquilo que o limita.


Segundo a mitologia persa, Sisamnes era juiz do rei. Falava em nome do soberano, decidia destinos, encerrava conflitos. A toga que vestia não era apenas um símbolo de autoridade — era um pacto silencioso de integridade absoluta. Quando aceitou um suborno e proferiu uma sentença injusta, não traiu apenas uma parte. Traiu a ideia de justiça.

O rei Cambises II entendeu isso com clareza desconcertante. Não viu ali um desvio individual, um erro humano corrigível com advertência ou aposentadoria honrosa. Viu um ataque estrutural. E puniu como quem quer deixar uma lição, não apenas eliminar um culpado.

O castigo foi extremo: Sisamnes foi esfolado vivo. Mas o que ficou não foi a violência em si — foi o método pedagógico. Antes de morrer, o juiz indicou o próprio filho como sucessor, acreditando que o sangue talvez comprasse clemência. Cambises aceitou. Nomeou Otanes juiz. E então mandou revestir a cadeira do tribunal com a pele do pai.

A cada julgamento, Otanes sentava sobre a memória do que acontece quando a lei é usada como mercadoria. Não era vingança. Era advertência permanente. Um lembrete diário de que a justiça não pertence a famílias, a castas, nem a projetos pessoais de poder.

Séculos depois, essa história ainda incomoda.

Hoje, em outro tempo e outro continente, não há peles curtidas revestindo cadeiras. Há discursos solenes, transmissões ao vivo, votos longos e linguagem técnica. Há uma Suprema Corte cercada de rituais, protocolos e imunidades simbólicas. Mas o risco é o mesmo: quando a corte deixa de ser guardiã da lei para se tornar protagonista do poder, algo se rompe.

A diferença é que, agora, a punição não vem do rei. Vem da história.

Não é o esfolamento que ameaça as instituições modernas, mas a erosão lenta da confiança. Cada decisão percebida como seletiva, cada julgamento que parece mais político do que jurídico, cada exceção criada para caber num resultado desejado vai, pouco a pouco, arrancando a “pele” simbólica da justiça — sua legitimidade.

E não há cadeira que sustente um juiz quando isso acontece.

O julgamento de Sisamnes atravessou séculos porque ensinava algo simples e cruel: quando a justiça falha, o preço não é apenas individual. Ele recai sobre quem vem depois. Sobre os filhos, sobre as instituições, sobre o próprio futuro.

O castigo não foi feito para ser esquecido.

Talvez por isso ainda faça tanto sentido lembrar dele.

(*) Neimar Fernandes é engenheiro, jornalista e publicitário; pós-graduado em Marketing pela Universidade do Estado de Nova Iorque (State University of New York System). Âncora, editor e produtor, passando pelas emissoras, TV Globo, Manchete, Record, Bandeirantes, Rede TV, SSV (Itália), SIC (Portugal); é colunista de diversos jornais no país, entre eles, Jornal do Brasil e O Globo; fundador e diretor secretário da Ajoia Brasil; e atuou como correspondente internacional em Portugal, Itália, Inglaterra e Espanha
Tag: castigointegridademitologia persasoberano
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