Por Neimar Fernandes (*)
Havia um tempo em que a justiça precisava ser ensinada com imagens fortes, quase brutais, porque o poder tende a esquecer rápido aquilo que o limita.
Segundo a mitologia persa, Sisamnes era juiz do rei. Falava em nome do soberano, decidia destinos, encerrava conflitos. A toga que vestia não era apenas um símbolo de autoridade — era um pacto silencioso de integridade absoluta. Quando aceitou um suborno e proferiu uma sentença injusta, não traiu apenas uma parte. Traiu a ideia de justiça.
O rei Cambises II entendeu isso com clareza desconcertante. Não viu ali um desvio individual, um erro humano corrigível com advertência ou aposentadoria honrosa. Viu um ataque estrutural. E puniu como quem quer deixar uma lição, não apenas eliminar um culpado.
O castigo foi extremo: Sisamnes foi esfolado vivo. Mas o que ficou não foi a violência em si — foi o método pedagógico. Antes de morrer, o juiz indicou o próprio filho como sucessor, acreditando que o sangue talvez comprasse clemência. Cambises aceitou. Nomeou Otanes juiz. E então mandou revestir a cadeira do tribunal com a pele do pai.
A cada julgamento, Otanes sentava sobre a memória do que acontece quando a lei é usada como mercadoria. Não era vingança. Era advertência permanente. Um lembrete diário de que a justiça não pertence a famílias, a castas, nem a projetos pessoais de poder.
Séculos depois, essa história ainda incomoda.
Hoje, em outro tempo e outro continente, não há peles curtidas revestindo cadeiras. Há discursos solenes, transmissões ao vivo, votos longos e linguagem técnica. Há uma Suprema Corte cercada de rituais, protocolos e imunidades simbólicas. Mas o risco é o mesmo: quando a corte deixa de ser guardiã da lei para se tornar protagonista do poder, algo se rompe.
A diferença é que, agora, a punição não vem do rei. Vem da história.
Não é o esfolamento que ameaça as instituições modernas, mas a erosão lenta da confiança. Cada decisão percebida como seletiva, cada julgamento que parece mais político do que jurídico, cada exceção criada para caber num resultado desejado vai, pouco a pouco, arrancando a “pele” simbólica da justiça — sua legitimidade.
E não há cadeira que sustente um juiz quando isso acontece.
O julgamento de Sisamnes atravessou séculos porque ensinava algo simples e cruel: quando a justiça falha, o preço não é apenas individual. Ele recai sobre quem vem depois. Sobre os filhos, sobre as instituições, sobre o próprio futuro.
O castigo não foi feito para ser esquecido.
Talvez por isso ainda faça tanto sentido lembrar dele.























