Por Mário Plaka (*)
Quem trabalha em uma perfumaria carrega o cheiro da perfumaria. Quem trabalha em um curtume leva consigo o odor do couro. Quem trabalha em uma cozinha sai impregnado pelo cheiro da comida. O pintor carrega tinta; o mecânico, graxa e óleo. Não há como passar horas dentro de determinado ambiente sem levar alguma coisa dele consigo.
É uma metáfora simples, mas talvez seja justamente por isso que ela ajude a compreender o momento institucional brasileiro.
Durante anos, denúncias, suspeitas, investigações e conflitos envolvendo os três Poderes foram aparecendo aos poucos. Uma reportagem aqui, outra ali. Uma informação divulgada por determinado jornalista. Um documento que surgia. Uma acusação que era contestada. Uma versão que enfrentava outra versão.
Nas redes sociais, muita gente já dizia enxergar aquilo que os grandes veículos de comunicação demoravam a mostrar.
Mas o que antes aparecia em conta-gotas hoje chega à sociedade em volume muito maior.
E quando as portas começam a se abrir, aquilo que estava escondido deixa de ser apenas rumor de corredor e passa a exigir esclarecimento público.
É preciso, entretanto, fazer uma distinção fundamental: suspeita não é condenação, denúncia não é sentença e investigação não significa culpa. É exatamente por isso que a apuração precisa existir. É ela que separa fato de narrativa, responsabilidade de acusação e verdade de especulação.
O problema é que, quando instituições encarregadas de administrar a Justiça passam a ser elas próprias atingidas por suspeitas graves, a questão deixa de ser apenas pessoal. Atinge a confiança na instituição.
E esse é o ponto central.
A ex-ministra do Superior Tribunal de Justiça Eliana Calmon vem fazendo críticas ao desgaste institucional do Supremo Tribunal Federal. Em junho, afirmou ao SBT News que a sociedade brasileira já percebia o STF como uma instituição que não estaria acima das questões morais e defendeu que eventuais crimes fossem apurados.
Agora, em setembro, diante da crise envolvendo Alexandre de Moraes e as informações relacionadas ao caso Banco Master, Calmon voltou a se manifestar. Questionada sobre a possibilidade de Moraes assumir a presidência do STF, respondeu que, em sua avaliação, a reputação do ministro estava “irremediavelmente perdida” e defendeu uma investigação isenta.
Não é necessário concordar integralmente com Eliana Calmon para compreender a dimensão da declaração.
Quando uma ex-ministra do STJ, que conhece por dentro o funcionamento da Justiça brasileira, afirma publicamente que a instituição enfrenta um problema grave de reputação, isso merece ser ouvido, confrontado com os fatos e submetido ao devido processo de apuração.
O Brasil não precisa de versões absolutas.
Precisa de transparência.
Precisa de investigação.
Precisa de instituições capazes de investigar a si mesmas quando necessário, sem corporativismo e sem proteção automática.
Porque existe uma pergunta que ultrapassa nomes, partidos e ideologias:
Quem fiscaliza aqueles que fiscalizam?
Nos últimos meses, a crise envolvendo o STF ganhou novos capítulos. Informações relacionadas ao caso Master provocaram confronto público entre ministros, enquanto o presidente da Corte, Edson Fachin, afirmou que nenhuma autoridade está acima da lei e defendeu uma resposta firme, proporcional e rigorosa aos fatos apresentados.
É justamente aí que a metáfora do porão volta a aparecer.
Durante muito tempo, muitos brasileiros tiveram a sensação de que já haviam chegado ao fundo do poço institucional.
Mas talvez o problema seja outro.
No fundo do fundo do fundo do poço ainda havia um porão.
E, quando imaginávamos ter chegado ao último compartimento, descobrimos que havia um fosso.
Agora, a questão não é quem tem razão nas redes sociais. Não é quem grita mais alto. Não é direita contra esquerda, situação contra oposição ou um grupo contra outro.
A questão é saber se as instituições brasileiras terão disposição para abrir as portas, acender as luzes e permitir que os fatos sejam examinados.
Porque democracia não sobrevive de silêncio institucional.
Sobrevive de transparência, responsabilidade, contraditório, investigação e respeito à lei.
E estamos entrando em período eleitoral.
Por isso, há uma frase que merece ser repetida, não como ordem a ninguém, mas como princípio de responsabilidade cívica:
VOTO NÃO TEM PREÇO. VOTO TEM CONSEQUÊNCIAS.
Cada cidadão terá de olhar para aquilo que viu, ouviu e compreendeu ao longo dos acontecimentos e formar seu próprio juízo.
Não cabe ao eleitor terceirizar sua consciência.
Nem a políticos, nem a partidos, nem a influenciadores, nem à imprensa, nem às redes sociais.
O eleitor é responsável pelo próprio voto.
E justamente por isso, antes de apertar qualquer botão na urna, talvez seja necessário fazer uma pergunta simples:
O que eu estou escolhendo apoiar — e quais consequências essa escolha poderá produzir?
Porque o cheiro que vem dos corredores do poder pode até ser ignorado por algum tempo.
Pode ser abafado.
Pode ser disfarçado.
Pode até receber perfume.
Mas, quando as portas se abrem, a sociedade finalmente consegue descobrir de onde vinha o odor.
E talvez esta seja a grande lição do momento:
não basta limpar a sala quando o problema está escondido no porão.
É preciso abrir o porão.
E, se houver um fosso abaixo dele, é preciso acender a luz.
Porque uma República não se fortalece escondendo suas vísceras.
Fortalece-se quando tem coragem de examiná-las.

























