Por Mário Plaka (*)
Quando a engrenagem começa a decidir quem pode chegar ao poder, o voto deixa de ser apenas uma escolha: passa a ser uma disputa contra estruturas que o cidadão muitas vezes nem consegue enxergar.
Fala-se muito em “sistema”. Mas, afinal, o que é o sistema? É simples: sistema é uma engrenagem formada por pessoas, partidos, instituições, interesses, relações de poder, influência, dinheiro, informação e regras. Uma peça sozinha pode parecer insignificante. Mas, quando todas trabalham juntas, produzem resultados. É assim que uma estrutura de poder se mantém.
E aqui está o ponto que o eleitor precisa compreender: trocar uma peça não significa necessariamente desmontar a máquina.
Durante décadas, diferentes grupos ocuparam espaços dentro do Estado e da sociedade. Política, educação, cultura, comunicação, sindicatos, instituições e estruturas administrativas foram sendo influenciados por diferentes correntes ideológicas e interesses. Isso não precisa ser tratado como teoria conspiratória; é uma característica natural da disputa pelo poder. Quem entende política sabe que poder não se exerce apenas ocupando a Presidência. Poder também se exerce ocupando espaços, formando quadros, estabelecendo alianças e influenciando decisões.
Eu posso falar disso com conhecimento de causa. Já estive do outro lado. Fui petista, participei da direção do PT e, posteriormente, rompi com aquilo em que acreditava. E quem rompe com uma estrutura que antes ajudava a sustentar passa a enxergar coisas que, enquanto está dentro dela, muitas vezes não consegue enxergar.
Foi nesse ambiente que surgiu Bolsonaro e, para seus apoiadores, sua ascensão representou uma ruptura com uma engrenagem política que parecia consolidada. Mas ruptura política não significa desaparecimento do sistema. Uma máquina que levou décadas para ser construída não desaparece porque uma peça nova entrou nela.
É exatamente por isso que o eleitor precisa prestar atenção ao que está acontecendo agora.
O episódio envolvendo a filiação de Flávio Bolsonaro ao partido Missão expôs uma vulnerabilidade que precisa ser investigada até o fim. O TSE restabeleceu sua filiação ao PL e determinou investigação sobre o caso. O próprio Tribunal informou que não houve invasão hacker, mas que a alteração foi realizada mediante credenciais legítimas vinculadas ao partido Missão.
Mas então surge uma pergunta que não pode ser abafada: se a tentativa de filiação de Lula também ocorreu, por que esse fato passou a ser apresentado como uma espécie de contrapeso ao episódio envolvendo Flávio Bolsonaro? Seria apenas coincidência? Seria um balão de ensaio? Ou uma cortina de fumaça para fazer o cidadão concluir que “não foi contra a direita, foi contra todos”? Não cabe transformar suspeita em sentença, mas cabe perguntar. E cabe exigir que a investigação chegue aos responsáveis. Porque, se houve acesso indevido, a pergunta é inevitável: quem tinha acesso, quem utilizou as credenciais e quem autorizou a operação? Não basta explicar o efeito. É preciso descobrir a origem. A tentativa envolvendo o nome de Lula também foi registrada no contexto das fraudes e levou o TSE a suspender temporariamente o processamento de novos registros no sistema de filiações.
E aqui está a grande lição: não importa apenas quem aparece no palco. É preciso observar quem controla as engrenagens, quem financia, quem articula, quem influencia, quem indica, quem negocia e quem se beneficia.
É por isso que eleição não pode ser torcida organizada. O eleitor não pode votar apenas porque gosta de um rosto, de um discurso ou de uma bandeira. Precisa olhar para deputados federais e senadores. Precisa entender que o Congresso também é uma das principais peças dessa engrenagem. Um Executivo sem apoio parlamentar enfrenta limites; um Legislativo sem independência pode se transformar em instrumento de interesses partidários.
E há uma responsabilidade ainda maior: não permitir que a fragmentação da direita, da oposição ou de qualquer campo político seja utilizada para simplesmente pulverizar votos. Isso não significa afirmar que todo candidato alternativo faça parte de algum sistema oculto. Significa perguntar: a candidatura é realmente competitiva? Qual é sua estrutura? Quem a sustenta? Quais são suas alianças? Qual é seu projeto? E, principalmente, a quem interessa determinado resultado?
Em Minas Gerais, o próprio cenário eleitoral mostra como alianças, partidos e candidaturas podem mudar rapidamente. Isso demonstra uma coisa que o eleitor precisa aprender de uma vez por todas: política não é apenas aquilo que aparece na propaganda. Existe uma engrenagem por trás.
O sistema, portanto, não deve ser tratado como um monstro invisível. Ele precisa ser compreendido. Porque, quando o eleitor entende a engrenagem, ele deixa de ser apenas espectador.
E talvez essa seja a maior ameaça para qualquer estrutura de poder: um eleitor que aprendeu a pensar.
Porque o voto é a única peça dessa máquina que pertence diretamente ao cidadão.
E se o eleitor entregar essa peça sem perguntar quem está montando a máquina, depois não adianta reclamar do resultado.
O sistema existe. A questão é: quem está controlando as engrenagens?























