Por Mário Plaka (*)
Quando a água começa a bater no pescoço, até quem passou anos defendendo o sistema resolve propor uma reforma para consertá-lo. Parece piada, mas não é. O PT aprovou, em 10 de setembro de 2026, uma resolução de sete páginas propondo reforma do Judiciário, mandatos para ministros das Cortes Superiores, fim de supersalários, quarentenas mais rígidas e endurecimento das penas para crimes como corrupção, peculato e tráfico de influência cometidos por magistrados. O partido também passou a cobrar transparência nas investigações e a defender que ninguém esteja acima da lei.
Tudo isso seria muito bom — se não fosse justamente agora, quando uma crise sem precedentes atinge o Supremo Tribunal Federal, envolvendo disputas entre ministros, investigações relacionadas ao Banco Master e questionamentos sobre relações entre autoridades públicas e agentes privados. O próprio Fachin retirou Alexandre de Moraes da condução do inquérito das fake news, suspendeu decisões conflitantes de André Mendonça e Flávio Dino e determinou que investigações envolvendo ministros do STF fossem submetidas previamente à Presidência da Corte. Então a pergunta do cidadão é simples: por que somente agora?
Eu posso fazer essa pergunta porque conheço o PT por dentro. Sou ex-petista e não fui apenas aquele militante que ficava na rua, na trincheira da manifestação. Conheci bastidores, estrutura partidária e disputas internas do PT e de outros partidos de esquerda.
Saí do PT há muitos anos, mas não perdi a memória do que vivi. E é justamente por conhecer esse ambiente que vejo uma ironia difícil de ignorar: durante anos, parlamentares e dirigentes políticos recorreram repetidamente ao Judiciário para travar batalhas que poderiam — e deveriam — ser resolvidas também dentro do processo político.
Hoje, diante de uma crise que atingiu o próprio Supremo, o partido apresenta uma grande proposta de reforma do Judiciário. Não há nada de errado em defender a reforma. O problema é a coerência, o momento e a credibilidade de quem apresenta a proposta.
Seria como um partido comunista criar uma resolução para combater o avanço do comunismo. Ora, se durante décadas você defende determinadas teses, constrói determinada visão de Estado e ajuda a formar determinado ambiente político, não pode esperar que o povo simplesmente esqueça tudo porque apareceu uma resolução nova dizendo que agora é preciso colocar freio naquilo que começou a incomodar.
E aqui está o ponto mais importante: não estou afirmando que todo petista é corrupto, nem que todo ministro do Supremo seja corrupto, nem que todo parlamentar que procura o STF esteja cometendo alguma irregularidade. Isso seria irresponsável.
Estou falando de percepção pública, de fatos políticos e de coerência institucional. Durante anos, o cidadão brasileiro viu a política recorrer cada vez mais ao Judiciário. Agora, quando o próprio Judiciário entra em uma crise interna e a confiança da população é colocada à prova, aparece o discurso de que é preciso reformar a Justiça, endurecer penas e aumentar o controle.
Pois muito bem: vamos reformar. Mas reformar para todos. Sem amigo, sem inimigo, sem esquerda, sem direita, sem ministro protegido, sem parlamentar protegido, sem partido protegido. Se a corrupção é o problema, que se investigue quem quer que seja.
Se houver crime, que haja processo. Se houver prova, que haja condenação. Se não houver prova, que haja absolvição. É assim que funciona uma democracia séria. Porque papel aceita qualquer coisa, resolução aceita qualquer discurso e partido pode mudar até o discurso. O que não pode mudar é a memória do povo.
O Brasil não precisa de uma resolução para descobrir que corrupção é errada. Precisa de instituições que tenham coragem de investigar os próprios aliados. Precisa de Judiciário independente, Legislativo independente, Executivo responsável e imprensa livre. E precisa, principalmente, de uma coisa que parece estar em falta em Brasília: coerência.
Porque combater a corrupção quando ela está do outro lado é fácil. Difícil é combater quando ela bate na porta de casa. E talvez seja justamente por isso que a resolução do PT pareça uma piada para tanta gente: não porque combater a corrupção seja engraçado, mas porque chega a ser irônico ver quem passou anos sendo cobrado por ela aparecer justamente agora dizendo que é preciso apertar o cerco.
A pergunta não é se a reforma é necessária. A pergunta é: se ela é tão necessária, por que só ganhou tanta urgência quando a crise chegou perto demais?























