Por Mário Plaka (*)
Wagner Moura não é o primeiro personagem público a ensaiar uma aproximação com o outro lado depois de anos de posicionamentos políticos claramente identificados com a esquerda. E talvez não seja o último. O problema não está em mudar de opinião. Todo cidadão tem esse direito. O problema começa quando a mudança parece acontecer não por convicção, mas por conveniência.
É preciso perguntar: onde estavam essas vozes quando as decisões que hoje criticam estavam sendo tomadas? Onde estavam quando empresários, artistas, profissionais de imprensa e políticos defendiam determinadas políticas e ajudavam a construir o ambiente político que hoje dizem querer questionar?
A política brasileira conhece muito bem esse comportamento. O Centrão é talvez a expressão mais conhecida dessa lógica: aproxima-se de quem está no poder, negocia, participa, apoia, ocupa espaços e, quando percebe que o vento mudou de direção, começa a procurar outro porto. Não necessariamente por convicção ideológica, mas por sobrevivência política.
É como um navio cheio de ratos: enquanto há comida e o casco parece firme, ninguém quer abandoná-lo. Mas basta aparecer a primeira rachadura, a primeira ameaça de naufrágio, para começar a correria. Cada um procura um pedaço de madeira, um bote ou qualquer coisa que possa levá-lo para um porto seguro.
Há uma diferença enorme entre reconhecer um erro e abandonar um barco quando ele começa a fazer água.
E isso não acontece apenas na política.
Há setores da imprensa que mudaram o discurso conforme mudaram as circunstâncias. Há artistas que defenderam determinados governos e projetos enquanto havia espaço, recursos e visibilidade. Há empresários que apostaram suas fichas em determinados grupos políticos, imaginando que encontrariam ali um ambiente favorável aos seus negócios. E, quando a maré começou a mudar, alguns passaram a descobrir virtudes justamente no lado que antes atacavam.
Mas existe uma questão que não pode ser esquecida: quem pagou a conta?
Enquanto alguns disputavam poder, influência, verbas, prestígio e espaço, havia um país real do lado de fora. Havia trabalhadores enfrentando inflação, impostos, desemprego, perda de poder de compra e dificuldades para sobreviver. Havia famílias tentando fechar as contas no fim do mês. Havia pequenos empresários lutando para manter suas portas abertas.
Por isso, nenhuma aproximação política deveria exigir do povo aquilo que a política brasileira tantas vezes tenta impor: o esquecimento. Reconhecer uma mudança de posição é uma coisa. Apagar o passado é outra.
Não precisamos perseguir ninguém por aquilo que pensou ontem. Mas também não precisamos fingir que ontem não existiu. A memória é uma ferramenta de cidadania.
O eleitor precisa lembrar quem apoiou quem. Quem votou em quê. Quem defendeu determinada política. Quem ocupava determinado cargo. Quem se calou. Quem protestou. Quem aplaudiu. Quem criticou. Quem se beneficiou. E, principalmente, quais foram os resultados produzidos por cada escolha.
Isso vale para presidente, governador, senador, deputado, prefeito, vereador, empresário, formador de opinião, jornalista ou artista. A democracia não pode funcionar como uma borracha que apaga o passado a cada eleição.
Quem mudou de opinião merece o direito de explicar por que mudou. Quem reconheceu um erro merece o direito de ser ouvido. Mas ninguém deveria exigir do povo brasileiro uma coisa que ele não pode entregar: amnésia.
Porque reconhecimento é virtude. Arrependimento pode ser nobre. Mudança de opinião faz parte da liberdade. Mas memória é obrigação.
E o povo brasileiro precisa continuar lembrando quem esteve de cada lado quando o Brasil atravessava suas tempestades.























