Por Mário Plaka (*)
Quando a política se mistura com instituições, encontros de bastidores e investigações que surgem no momento mais sensível, o eleitor tem o direito de perguntar: por que agora?
Há momentos em que a política brasileira deixa de produzir apenas fatos e começa a produzir perguntas. E a pergunta da vez é simples: por que agora?
Assim que Alfredo Gaspar foi anunciado por Flávio Bolsonaro como candidato a vice-presidente, dois dias depois veio a notícia de que a Procuradoria-Geral da República pediu novas diligências à Polícia Federal em uma investigação envolvendo o deputado. Gaspar nega a acusação, e o procedimento ainda está em fase de apuração. Portanto, investigação não é condenação, e diligência não é sentença.
Mas, diante do calendário eleitoral, é inevitável que surjam questionamentos. Por que essa diligência não foi solicitada antes? Por que justamente agora, depois do anúncio do vice de uma candidatura que pretende enfrentar o atual governo?
Não estou afirmando que exista perseguição política. Estou dizendo que, na minha percepção, o momento levanta uma suspeita que merece ser esclarecida.
E, quando falamos em percepção, precisamos falar também do ambiente político. De um lado, vemos aproximações, encontros, jantares e articulações envolvendo figuras importantes da República. Alexandre de Moraes, Lula e o presidente do Senado participaram de um jantar de aproximação.
Além disso, partidos que se apresentam como independentes, moderados ou “isentões” preferem permanecer em silêncio, observando para onde o vento sopra antes de escolher um lado.
E aqui entra uma realidade que ninguém deveria fingir desconhecer: partido político no Brasil também é negócio.
Eu, Mário Plaka, afirmo: muitos partidos funcionam politicamente como verdadeiras franquias.
Existem estruturas nacionais, estaduais e municipais, recursos públicos, fundos partidários, tempo de televisão, cargos e uma máquina política que movimenta interesses gigantescos.
Não estou dizendo que todos os partidos sejam iguais ou que todos os seus dirigentes ajam da mesma maneira. Mas é impossível ignorar que, especialmente no chamado Centrão, a estratégia frequentemente parece ser a sobrevivência política acima de qualquer convicção ideológica.
É o famoso muro. Ficam em cima dele. Não assumem compromisso definitivo com ninguém. Esperam.
Observam. Calculam. E depois descem para o lado que parece oferecer menor risco ou maior vantagem.
Só que eu deixo um recado: o muro é alto. E, para descer dele, o risco também é altíssimo. Porque o eleitor está olhando.
O eleitor está acompanhando quem se posiciona, quem se omite, quem muda de discurso, quem negocia nos bastidores e quem aparece somente quando a eleição já está praticamente decidida.
E isso nos leva novamente às instituições.
Quando uma investigação envolvendo um candidato a vice-presidente aparece imediatamente após o anúncio de sua candidatura, não se pode exigir que o cidadão simplesmente aceite tudo em silêncio.
Da mesma maneira, quando ministros do Supremo Tribunal Federal participam de articulações, encontros ou acontecimentos políticos que envolvem atores diretamente interessados no processo eleitoral, é natural que parte da sociedade questione os limites entre institucionalidade, relacionamento político e independência.
Questionar não é condenar. Desconfiar não é provar. E fazer perguntas não significa atacar a democracia. Muito pelo contrário. Uma democracia madura precisa suportar perguntas difíceis.
Há ainda uma questão que, na minha visão, precisa ser observada com muito cuidado: o que está nas entrelinhas de cada ação?
Nem sempre o efeito político de uma medida está apenas no resultado jurídico que ela produzirá. Às vezes, o simples fato de uma investigação, uma diligência, uma decisão ou uma movimentação institucional vir a público já produz um efeito político imediato.
Mesmo que, no final, não resulte em absolutamente nada contra o investigado, a narrativa já foi criada. E, uma vez criada, ela passa a circular nas redes sociais, nos grupos políticos, nos comentários e nos discursos daqueles que desejam utilizá-la de maneira maliciosa contra determinado adversário.
É preciso olhar não apenas para a fotografia, mas também para aquilo que está aparecendo no segundo e no terceiro plano.
Foi exatamente essa reflexão que fiz recentemente em uma reunião com empresários aqui em Coronel Fabriciano: muitas vezes, o mais importante não está no que aparece na frente da fotografia, mas naquilo que está acontecendo nas entrelinhas.
Uma ação pode ser juridicamente legítima. Uma diligência pode fazer parte de um procedimento absolutamente normal. Uma investigação pode ser necessária.
Mas a pergunta política permanece: por que agora?
Porque, quando uma determinada ação acontece justamente em um momento politicamente sensível, ela pode acabar produzindo uma narrativa antes mesmo de produzir uma conclusão jurídica.
E é aí que mora o perigo.
Não estou afirmando que exista uma ação orquestrada. Estou dizendo que, na minha percepção, a sucessão desses acontecimentos pode produzir um efeito político perfeitamente previsível: criar material para que terceiros construam narrativas, alimentem suspeitas e ataquem adversários.
Isso também é política. E talvez seja justamente por isso que o cidadão precise aprender a olhar além daquilo que está diante dos seus olhos.
Não basta olhar para a peça. É preciso observar o segundo plano, o terceiro plano e, principalmente, perguntar o que existe nas entrelinhas.
Porque algumas vezes a ação termina sem condenação, sem denúncia e sem consequência jurídica. Mas a narrativa já cumpriu o seu papel.
E é exatamente por isso que a pergunta “por que não fizeram antes?” não pode ser tratada como uma pergunta inconveniente. É uma pergunta legítima. Por que somente agora?
Eu, Mário Plaka, não estou afirmando que exista uma conspiração contra a direita. Estou dizendo que essa é a minha percepção diante da sucessão de acontecimentos que vêm ocorrendo no cenário político brasileiro.
E, se a percepção estiver errada, cabe às próprias instituições demonstrar isso com transparência, coerência e tratamento absolutamente igual para todos.
Porque imparcialidade não pode ser apenas declarada. Ela precisa ser percebida.
E aqui está o ponto central. Se existe investigação contra Alfredo Gaspar, que se investigue. Se existem provas, que sejam apresentadas. Se não existem provas, que o caso siga o caminho determinado pela lei.
Mas a mesma régua precisa ser utilizada para todos os lados. Porque não existe democracia verdadeira quando o cidadão começa a acreditar que a Justiça possui uma régua para os amigos e outra para os adversários.
O eleitor brasileiro não é criança. Ele vê. Ele compara. Ele guarda. E, principalmente, ele vota.
A eleição de 2026 não será decidida apenas pelos discursos dos candidatos. Será decidida também pela memória do eleitor sobre quem ficou em cima do muro, quem se posicionou, quem se calou e quem tentou escolher o lado somente depois de descobrir quem estava ganhando.
Por isso, a pergunta permanece: por que só agora?
E outra pergunta precisa acompanhar essa: se a imparcialidade existe, por que tantas vezes é necessário que o cidadão tenha de perguntar se ela existe?
O Brasil precisa de instituições fortes. Mas instituições fortes não são aquelas que não podem ser questionadas. São aquelas que podem ser questionadas e conseguem responder.























