Cerca de cem pessoas de dez municípios dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri participaram nesta quinta-feira (5/11/26) do encontro regional da Discussão Participativa do Plano Plurianual de Ação Governamental (PPAG) 2024-2027, realizado em Almenara. O objetivo do evento foi revisar a distribuição de recursos destinados a programas e ações para a região.
Os debates no município foram divididos em dois grupos temáticos: “Desenvolvimento regional: economia e cultura” e “Meio ambiente, agricultura e água”. No primeiro grupo, que reuniu cerca de 50 propostas, a participação de representantes indígenas foi expressiva.
A cacique Maria Diva Maxacali, da Aldeia Água Boa Nova Raiz, localizada em Santa Helena de Minas, relatou problemas nas estradas de chão que dão acesso à comunidade, que engloba cerca de mil indígenas em aproximadamente 200 cabanas. Segundo ela, a precariedade das vias, que ficam quase intransitáveis no período de chuvas, prejudica o atendimento de saúde. Os veículos que transportam pacientes para centros maiores sofrem danos com os impactos e acabam estragando, o que reduz ainda mais a assistência.
Outros membros da Aldeia Água Boa também apresentaram demandas, como apoio ao artesanato indígena — com proposta ampliada para a construção de um centro de apoio ao artesão em Almenara — e melhorias nas habitações, que são predominantemente de barro e capim.
A cacique Maria Diva Maxacali afirmou que seu povo sofre discriminação devido à precariedade dos serviços de saúde e transporte. “Tem que fortalecer nosso povo, fazer projetos para valorizar nossa cultura, nossos cantos, nossa pintura”, solicitou. Após agradecer a reeleição de Lula à Presidência da República, a cacique e outros indígenas apresentaram um canto acompanhado de instrumentos de percussão para abençoar o encontro.
Cultura e desenvolvimento regional
Na área cultural, Priscila da Silva Semeão, presidente do Instituto Sociocultural Bruta Flor, de Araçuaí, buscou apoio financeiro para circular com o espetáculo Filhos da Terra do Sol por várias cidades da região. A iniciativa envolve cerca de 30 crianças que recitam textos do poeta Manoel de Barros entremeados por músicas do cancioneiro nacional.
Segundo Priscila Semeão, o instituto oferece aulas gratuitas de coral, teatro, percussão, dança e capoeira para cerca de 300 crianças e adolescentes. A entidade tem como principal patrocinadora a mineradora canadense Sigma Lithium e atua na capacitação de grupos culturais para captação de recursos por meio de leis de incentivo.
Outras propostas do primeiro grupo abordaram a oferta de trabalho, melhoria de renda, desenvolvimento local e regional e segurança pública.
Demandas por água e saneamento
No segundo grupo temático, que registrou quase 20 propostas, integrantes do Quilombo Marobá dos Teixeiras — situado a 30 quilômetros da sede de Almenara e composto por 32 famílias — relataram problemas no abastecimento. O quilombola Arnaldo Teixeira Campos criticou a qualidade da água consumida pela comunidade.
“Pegamos água diretamente no Rio Marobá, sem tratamento; muitas pessoas, principalmente crianças, passam mal, e algumas estão com xistose”, afirmou, referindo-se ao nome popular da esquistossomose, doença parasitária associada ao uso de água não potável.
Ele reivindicou apoio para a análise da água do rio e o posterior tratamento, caso seja confirmada a presença de micro-organismos nocivos. Outro grupo quilombola, de Araçuaí, também cobrou melhorias no abastecimento de água e tratamento de esgoto.
As discussões sobre recursos hídricos incluíram ainda pedidos de kits de irrigação, tratores e implementos agrícolas para pequenos produtores, construção de barraginhas e proteção de nascentes. Agricultores familiares solicitaram também kits de apicultura e de feira para exposição e comercialização de produtos.
Participação popular e orçamento estadual
Durante a abertura dos trabalhos, o deputado Ricardo Campos, presidente da Comissão de Participação Popular, afirmou que o encontro representa a busca da população regional por fatia do orçamento do Estado. Ele destacou que a atuação da comissão resultou, nos últimos quatro anos, em uma execução orçamentária superior a R$ 100 milhões para os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri.
Entre as obras viabilizadas, o parlamentar citou a reforma de unidades das Polícias Militar e Civil em Almenara e Itaobim, além da Delegacia da Mulher de Teófilo Otoni, além da distribuição de mais de 10 mil kits de irrigação e recursos para eventos culturais como o Festivale e o Coral das Lavadeiras de Almenara. Por outro lado, criticou a falta de prioridade do Governo de Minas para a construção de reservatórios de água na região.
A deputada Andréia de Jesus (PT) enfatizou a necessidade de apoio aos povos e comunidades tradicionais. “Os quilombos precisam de apoio para arranjos produtivos da agricultura familiar, das economias solidária e quilombola”, declarou, agradecendo aos vereadores locais por viabilizarem o transporte da comunidade maxacali até a audiência.
Representando a Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), o especialista em políticas públicas Gustavo Bosco de Oliveira Silva abordou a situação fiscal do Estado. Segundo ele, embora o orçamento de 2026 preveja um superávit de R$ 3 bilhões, a projeção para 2027 aponta para um déficit de R$ 10 bilhões. Ele defendeu que a população participe ativamente da discussão orçamentária para não concentrar as decisões apenas no Executivo e no Legislativo.
O prefeito de Almenara, Eduardo Oliveira Brasileiro, elogiou o evento e lembrou que edições anteriores garantiram recursos para a construção da Casa da Mulher Brasileira no município, a terceira do Estado. A secretária municipal da Mulher, dos Direitos Humanos e da Igualdade Racial, Evani Andrade do Nascimento, pediu apoio estadual para projetos voltados à igualdade racial, valorização de religiões de matriz africana e atendimento aos povos indígenas.

























