Por Mário Plaka (*)
O eleitor precisa parar de escolher apenas presidente e governador. A conta pública também passa pelos deputados estaduais e federais, senadores, vereadores e por todos os Poderes que administram, legislam, julgam e consomem o dinheiro do cidadão.
O Brasil vive um momento de desequilíbrio fiscal que não pode mais ser tratado como um problema exclusivo do governo federal. A dívida cresce, os juros pesam, as despesas obrigatórias comprimem o orçamento e o espaço para investimentos diminui. Mas existe algo ainda mais grave: enquanto o cidadão é chamado permanentemente a pagar mais impostos e a aceitar sacrifícios, a discussão sobre o tamanho, o custo e a eficiência da máquina pública continuam sendo empurrada para depois.
E é justamente aí que o eleitor precisa abrir os olhos.
Durante as eleições, quase toda a atenção se concentra no presidente da República e no governador. Discutem-se nomes, partidos, ideologias e promessas, enquanto deputados estaduais, deputados federais, senadores e vereadores muitas vezes passam quase despercebidos. Só que são eles também que fazem leis, aprovam orçamentos, fiscalizam governos e participam das decisões que determinam para onde vai o dinheiro público.
O Legislativo brasileiro precisa ser cobrado. E muito.
Não é razoável que o eleitor enxergue o Congresso apenas como um fiscal do governo de plantão, quando deveria enxergá-lo também como parte fundamental da responsabilidade fiscal do país. O problema não está na existência do Legislativo, que é indispensável à democracia. O problema surge quando estruturas políticas passam a funcionar em torno da manutenção do poder, da distribuição de cargos, da disputa por verbas e da negociação permanente.
É nesse contexto que o chamado Centrão precisa ser colocado sob os holofotes. Não para transformar todos os seus integrantes em criminosos ou corruptos, mas para questionar uma prática política que, há décadas, permite que grupos se mantenham próximos do poder, independentemente de quem ocupe a Presidência. O eleitor precisa saber quem está votando em leis para melhorar o país e quem está apenas negociando espaço dentro da máquina pública.
Mas seria igualmente irresponsável colocar toda a culpa no Congresso e absolver o Executivo.
O governo federal tem sua parcela de responsabilidade. Os governadores têm a sua. Os prefeitos também. Estados e municípios precisam administrar melhor suas próprias estruturas, controlar despesas, combater desperdícios e parar de tratar Brasília como uma fonte permanente de socorro financeiro. O problema fiscal brasileiro não nasceu ontem e não será resolvido apenas com a troca do ocupante do Palácio do Planalto.
E a conta não termina no Executivo e no Legislativo.
O Judiciário brasileiro também precisa participar dessa discussão. O Brasil possui uma estrutura judicial de custo elevado, e o Supremo Tribunal Federal, como Corte máxima da República, não pode ser colocado fora do debate. Isso não significa dizer que o STF seja responsável pela maior parte das despesas do Judiciário — os números não sustentam essa afirmação. Significa reconhecer que também é legítimo discutir quanto custa manter a estrutura do Supremo, seus servidores, benefícios, aposentadorias, instalações, segurança, tecnologia e toda a estrutura necessária ao seu funcionamento.
Para 2027, o próprio STF aprovou uma proposta orçamentária de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, sendo cerca de R$ 811,5 milhões destinados a despesas obrigatórias, incluindo salários, encargos e benefícios. E a discussão sobre remunerações e os chamados penduricalhos do sistema de Justiça também não pode ser tratada como assunto proibido. O próprio Supremo já estabeleceu parâmetros para o cumprimento do teto constitucional e determinou que tribunais apresentassem informações sobre pagamentos remuneratórios e indenizatórios realizados a magistrados, aposentados e pensionistas.
Não se trata de atacar a independência do Judiciário. Trata-se de defender um princípio simples: nenhum Poder da República deve estar acima da responsabilidade de prestar contas à sociedade.
O Brasil precisa parar de discutir apenas quem vai mandar e começar a discutir quanto custa manter o poder funcionando.
A máquina pública precisa ser enxuta. Não para destruir o Estado, acabar com os serviços públicos ou enfraquecer as instituições, mas para eliminar excessos, desperdícios, privilégios injustificáveis e estruturas que consomem recursos sem entregar à população os resultados que deveriam entregar.
Essa responsabilidade começa no município, passa pelas Câmaras de Vereadores, chega às Assembleias Legislativas, alcança os governos estaduais, entra na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, chega ao governo da União e alcança também o Judiciário.
Todos precisam fazer sua parte.
Porque não adianta um governo falar em equilíbrio fiscal enquanto o Legislativo aumenta despesas e transforma recursos públicos em instrumentos de negociação política. Não adianta o Congresso cobrar austeridade do Executivo enquanto não discute seriamente seus próprios custos. Não adianta exigir sacrifícios do contribuinte enquanto qualquer tentativa de mexer em privilégios encontra resistência dentro das estruturas de poder.
Se o cidadão precisa apertar o cinto, o Estado também precisa aprender a apertar o seu.
É por isso que a eleição de 2026 precisa ser encarada com muito mais responsabilidade. O eleitor não pode olhar apenas para a Presidência da República ou para o governo do estado. Precisa prestar atenção em quem está disputando uma cadeira de deputado estadual, deputado federal ou senador. Precisa conhecer o histórico, as votações, as alianças e, principalmente, saber se aquele candidato pretende servir ao cidadão ou apenas ocupar mais um espaço dentro da máquina pública.
A pergunta não é somente quem vai governar. A pergunta é: quem vai ter coragem de enxugar o Estado? Quem vai enfrentar o desperdício? Quem vai discutir privilégios? Quem vai controlar despesas? Quem vai defender o dinheiro do contribuinte quando a pressão vier de dentro do próprio grupo político?
Porque o Brasil não precisa apenas de um novo presidente, de um novo governador ou de novos parlamentares. O Brasil precisa de uma nova cultura de administração pública.
Uma cultura em que nenhum Poder seja intocável, nenhum privilégio seja automaticamente justificável e nenhuma despesa seja considerada sagrada quando quem paga a conta é o povo.
O eleitor tem nas mãos a ferramenta mais poderosa para começar essa mudança: o voto.
Mas voto consciente exige olhar para todos os lados — Executivo, Legislativo e Judiciário — e entender que o dinheiro público não pertence aos governos, aos partidos, aos parlamentares ou aos tribunais. Pertence ao cidadão. E quem não entender isso não deveria estar administrando o dinheiro de quem entende.
Voto não tem preço. Voto tem consequência.























