Amauri Meireles (*)
Domingo próximo, dia 4 de outubro, teremos eleições no Brasil para presidente, governadores, senadores e deputados, federais e estaduais. Um evento que se apresenta quadrienalmente para exercitarmos um de nossos maiores direitos: o de votar e ser votado. E, mais do que isso, uma oportunidade de exercermos a cidadania ativa em nosso regime democrático.
Paradoxalmente, porém, uma intrigante constatação: o Brasil tem em torno de 160 milhões de eleitores e, segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral, 40 milhões, em média, não se utilizam corretamente do voto, dessa preciosa ferramenta de soberania popular.
É lamentável que 20% (vinte por cento) se abstenham e 5% (cinco por cento) “estraguem” seu voto. Quanto à abstenção, otimistamente, diria que 10% (dez por cento) decorrem de fatores impeditivos insuperáveis e 10% (dez por cento) podem ser creditados ao desinteresse ou a um protesto do eleitor, desiludido com o sistema político, que faz a opção de não comparecer às urnas.
Em relação aos votos “desperdiçados”, o contrassenso é maior porque o eleitor se dá ao trabalho de comparecer ao local para votar em branco ou nulo, mas, ao final, seu voto é simplesmente descartado, ou seja, seu esforço não terá tido qualquer utilidade.
Então, sob minha óptica, nesses dois procedimentos, o eleitor, imperceptivelmente, está equivocado, está renunciando ao raro momento de praticar seu poder de decisão, deixando que outros escolham, com sua omissão, quem nos governará. E, assim, lhe resta a alternativa de choramingar, de maldizer a escuridão dos próximos quatro anos, quando teve a oportunidade de acender uma vela.
Uma constatação extremamente relevante, contudo, refere-se ao eleitor maior de 70 anos, que está desobrigado de votar. Em 2018, eram 12 milhões e, desses, aproximadamente 62,7% (perto de 6,9 milhões) não votaram, ao passo que em torno de 37,3% (4,5 milhões) de eleitores compareceram às urnas. Já em 2022, eram 14,8 milhões. Desse número, a abstenção teve uma leve queda, ficando em 58,9% (cerca de 8,7 milhões de ausentes), enquanto 41,1% (aproximadamente 6,1 milhões) de eleitores idosos exerceram o voto.
A par de se considerar o inexorável envelhecimento demográfico da população brasileira, é oportuno (conveniente e necessário) ressaltar o crescente engajamento político do idoso brasileiro. Seu comparecimento às urnas é um exemplo vivo para as gerações que o sucedem de que não podemos nos omitir. Ele nos mostra que, sobretudo, respeitando posições contrárias, a hora de acatar determinada proposta de governo e de manifestar nossa vontade política é agora.
Quero crer que o comparecimento do idoso às urnas tem um simbolismo residual muito importante. É um convite aos omissos, aos choramingões de amanhã, aos revoltados, aos descrentes, aos que não compreenderam o enorme valor que tem o seu voto, enfim, aos abstencionistas, para que façam um esforço e se desloquem para os locais de votação. Afinal, lá é o sagrado reduto da soberania popular.
Enfim, no dia da eleição, reverenciem o idoso que se desloca para votar, desafiando o tempo e as limitações do corpo. Ele carrega na mão o título e, na alma, o peso da história que ajudou a construir. Sua presença na seção eleitoral é uma bofetada na face do desinteresse e uma cobrança viva aos que preferem choramingar a agir.
Abram alas para essa inspiradora referência de civismo, mas, acima de tudo, sigam o seu rastro. Afinal, se quem já cumpriu seu papel cívico continua na linha de frente, a ninguém é dado o direito de desertar.
(*) Coronel veterano da Polícia Militar de Minas Gerais
Tags para pesquisa:
























