Por Mário Plaka (*)
Não adianta alguns setores da esquerda, principalmente, dizerem que o que acontece no Supremo Tribunal Federal é apenas uma disputa de poder entre grupos políticos. Não. O que está diante dos olhos do Brasil é muito maior: é a disputa da lei com aquilo que está sendo apontado e acusado como crime. E o mais grave é que as suspeitas e acusações chegaram às entranhas do poder, envolvendo, conforme os documentos e relatos tornados públicos, ministros, pessoas próximas de ministros, parentes, empresários e personagens que orbitam o governo federal, o Senado e a Câmara.
As vísceras da corrupção estão expostas. E foram expostas de maneira cabal. O mundo viu a sessão do Supremo. Eu já acompanhei outras sessões e julgamentos do STF e até de outras instâncias e, sinceramente, o que chamou atenção nessa não foi apenas o conteúdo, mas a forma como determinadas questões foram conduzidas.
Quando se discutem pedidos que atingem integrantes da própria Corte, entra em cena uma pergunta elementar sobre ética, moralidade processual e impedimento: quem deveria participar de um julgamento quando a própria situação discutida pode alcançar, direta ou indiretamente, os seus integrantes? Pela lógica que conheço de sessões e julgamentos, alguns poderiam ter de se declarar impedidos. Mas aí surge a ironia: se todos os que eventualmente tivessem alguma razão para se declarar impedidos realmente saíssem das cadeiras, talvez fosse necessário buscar os antigos ministros que estavam na primeira fila e pedir que voltassem ao plenário — porque cadeira disponível, naquela conjuntura, poderia sobrar pouca. É uma ironia, claro, mas ela expõe a dimensão do problema.
A pergunta já não é quem pertence à esquerda ou à direita. É outra: quem está submetido à lei quando as próprias entranhas do poder são colocadas sob suspeita? Se há acusação, investigue. Se há documentos, examine. Se há relações que precisam ser esclarecidas, esclareça. Se houver crime, que a lei alcance o responsável, seja quem for. E, se a acusação não for comprovada, que isso também seja demonstrado. A lei não pode ter partido, amizade, parentesco, mandato, governo ou toga como blindagem.
E existe um sinal ainda mais forte de que essa crise ultrapassou Brasília: o povo está discutindo o poder. Pessoas em situação de rua discutem o que acontece no Congresso, no governo federal e no Supremo Tribunal Federal. Não porque tenham menos ou mais direito de falar, mas porque isso demonstra até onde o assunto chegou. Está nas igrejas, nos centros religiosos, nos bares, nas esquinas, nas empresas, nas famílias e em todos os lugares.
Quando o cidadão comum passa a discutir as entranhas das instituições, alguma coisa aconteceu com a confiança que ele depositava nelas. O Congresso passa a ser questionado; o governo federal passa a ser questionado; o Supremo passa a ser questionado. A crise deixou de estar somente dentro dos prédios. Tornou-se uma crise de confiança na sociedade. E confiança não se decreta: constrói-se com transparência, responsabilidade, investigação e verdade. A República não pertence a ministros, presidente, senadores, deputados ou partidos. A República pertence ao povo. Por isso, não adianta tentar reduzir tudo a uma briga de esquerda contra direita.
O cidadão está olhando para as vísceras do poder e fazendo a pergunta que realmente importa: quem fiscaliza o poder quando o próprio poder está sob suspeita? As portas podem continuar fechadas, os discursos podem tentar explicar, os grupos podem tentar transformar tudo em disputa política. Mas uma coisa já mudou: o povo viu. E quando o povo vê, pergunta. Quando pergunta, cobra. E as instituições deveriam responder.

























