Por Mário Plaka (*)
Em 1945, George Orwell publicou A Revolução dos Bichos. Parecia apenas uma história sobre animais revoltados contra um fazendeiro. Não era. Era um alerta. Os animais fizeram uma revolução em nome da liberdade, da igualdade e da justiça. Derrubaram o antigo dono da fazenda e estabeleceram suas próprias regras. O problema começou quando alguns animais descobriram que poder também dá privilégios. Os porcos passaram a mandar. Depois, passaram a justificar seus privilégios. Depois, passaram a controlar a narrativa. E, finalmente, chegaram ao ponto em que a igualdade continuava escrita na parede — mas já não existia na prática.
“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”
Orwell não estava apenas contando uma história. Estava descrevendo o mecanismo pelo qual uma promessa de libertação pode terminar em uma nova forma de dominação. E é impossível olhar para o Brasil de hoje sem lembrar dessa fábula.
Falamos em soberania. Falamos em democracia. Falamos em cidadania. Falamos em Estado de Direito.
Mas que democracia é essa quando as instituições que deveriam oferecer segurança jurídica passam a ser protagonistas de crises institucionais? Que soberania é essa quando o cidadão comum assiste, perplexo, a uma disputa dentro do próprio Supremo Tribunal Federal, com um ministro pedindo investigação contra outro? Isso deixou de ser uma hipótese literária: Alexandre de Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a investigação de André Mendonça, alegando possíveis crimes como abuso de autoridade, improbidade e crime de responsabilidade.
E o cidadão olha para tudo isso e pergunta: Quem fiscaliza quem?
No Congresso Nacional, a pergunta não é muito diferente. Banco Master, INSS, investigações, CPIs, suspeitas, relações políticas e interesses econômicos formam um cenário em que o cidadão começa a ter dificuldade para distinguir quem deveria estar fiscalizando o sistema de quem está sendo investigado pelo próprio sistema.
E o caso Banco Master chegou a um ponto ainda mais delicado: as apurações passaram a envolver também relações e contatos de ministros do Supremo Tribunal Federal. Relatórios e informações divulgadas no curso das apurações trouxeram referências a contatos entre o banqueiro Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, além de menções a outros integrantes e familiares de ministros da Corte.
O caso provocou uma crise interna no próprio STF, ao ponto de um ministro pedir investigação contra outro. A pergunta que fica para o cidadão é simples e incômoda: Quem fiscaliza quem quando os próprios fiscalizadores passam a ser alcançados pelas investigações?
A CPMI do INSS chegou a aprovar requerimentos relacionados ao Banco Master. E quando aparecem denúncias envolvendo políticos, empresários, familiares, assessores ou pessoas próximas ao poder, é preciso lembrar de uma coisa elementar: Acusação não é condenação. Investigação não é sentença.
Mas investigação também não pode ser tratada como assunto proibido. É justamente para isso que existem instituições independentes, transparência, contraditório, ampla defesa e fiscalização. O problema começa quando a régua da Justiça parece mudar conforme o tamanho, o cargo ou a proximidade do investigado com o poder.
E aqui Orwell volta a entrar em cena. Na fazenda dos bichos, os animais acreditavam que haviam derrubado um sistema de privilégios. Mas descobriram tarde demais que haviam apenas trocado os donos da fazenda. O poder mudou de mãos. O mecanismo continuou.
Essa é a pergunta que o Brasil precisa fazer. Estamos realmente construindo uma democracia mais forte ou apenas assistindo à substituição de uma elite por outra?
Porque cidadania não significa apenas votar. Cidadania significa fiscalizar. Soberania não significa apenas cantar o Hino Nacional. Soberania significa que nenhum cidadão — e muito menos nenhum poderoso — pode estar acima da lei. E democracia não significa dar um cheque em branco para governantes, parlamentares, ministros, partidos ou instituições. Democracia significa exatamente o contrário: Ninguém recebe autorização para ser dono do país.
O Brasil parece estar vivendo uma perigosa inversão de valores. O cidadão que questiona pode ser tratado como problema. O cidadão que exige transparência pode ser chamado de radical. O cidadão que pergunta onde está o dinheiro pode ser tratado como inimigo.
Enquanto isso, aqueles que ocupam as estruturas do poder continuam discutindo entre si quem pode investigar quem, quem pode julgar quem, quem pode controlar quem.
E o povo? O povo paga a conta. Paga imposto. Paga juros. Paga corrupção. Paga privilégios. Paga incompetência. E, muitas vezes, ainda recebe a conta acompanhada de uma explicação: “É pela democracia”. Não. Democracia não pode ser uma palavra mágica usada para justificar qualquer coisa.
Orwell nos deixou uma advertência que continua atual: Quando a linguagem muda para esconder a realidade, a liberdade começa a morrer antes mesmo de desaparecer.
Por isso, talvez a maior lição de A Revolução dos Bichos não seja sobre porcos. Seja sobre nós. Sobre uma sociedade que precisa aprender que o poder não é propriedade de quem ocupa o cargo. É uma delegação temporária recebida do povo. E quando aqueles que receberam essa delegação começam a acreditar que são donos da fazenda, chegou a hora de os animais — digo, os cidadãos — acordarem.
Porque o perigo não está apenas em quem governa. O perigo está quando o povo deixa de fiscalizar quem governa.
No fim da história de Orwell, os animais olham para os porcos e já não conseguem distinguir quem é porco e quem é homem. No Brasil de hoje, a pergunta é ainda mais incômoda: Será que estamos conseguindo distinguir democracia de discurso, Justiça de poder e soberania de propaganda?
A história não perdoa sociedades que entregam sua liberdade em troca de promessas.
E o eleitor precisa aprender, de uma vez por todas: Voto não tem preço. Voto tem consequência.























